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CONSIDERAÇÕES SOBRE ESQUIZOANÁLISE por Marcos Ribeiro

janeiro 15, 2019 Marcos 0 Comments Category : , , ,


Embora o pensamento de Deleuze e Guattari brilhe, é notório que há aqueles que não conseguem enxergar, mas não conseguindo ver, mesmo assim observam, porque estão à espreita de encontrá-lo. E assim acontece para poucos, não pela interpretação, mas pelo brilho. Isso se dá pelo fenômeno que os autores lutaram contra os próprios conceitos que criaram, não se trata de produzir algo que abra um acesso para os comentadores profissionais, que por sua vez, criam um dos pontos mais detestáveis, mais condenáveis pelos franceses: as palavras de ordem. As palavras de ordem que se encontram em todas as espécies de bloqueios: na família, na sociedade, no Estado, nos burocratas, na TV, na Internet, nos partidos, na psiquiatria, na psicanálise e em todas as formas de poder que de uma maneira ou de outra agenciam através da linguagem, das semióticas, para a produção do grande grupo chamado de maioria: os paranoicos fascizantes. 
Citemos o exemplo da psicanálise, o paciente entra no consultório e o psicanalista invoca as lembranças do psicanalisado e o "doente" tenta buscar por meio do confessionário ou da livre associação, seus traumas de infância, suas lamentações etc. Ele se torna o bebê ao lado da mãezinha, é como se dissesse: "mãezinha, você é a culpada da minha impotência, das minhas frustrações, você me mimou ou não mimou o suficientemente". Terminada a sessão o paciente se sente aliviado: se livrou dos seus recalques, das neuroses reprimidas, porque chegou-se a uma conclusão: a culpa é da minha mãe ou do meu pai que não me deu carinho o suficiente, ou seja, o mito. Mas não é bem assim que funciona, não há a cura porque sempre haverá a necessidade da mãe, a mãe real não o trata mais como um bebê, e isso é permitido no consultório, por ser algo discreto, sigiloso, e essa relação de paciente-mamãe ou paciente-papai se torna eterna, afinal os laços familiares são algo que se perpetuam, porque o psicanalista diz: “você dirá tudo, mas, ao dizer tudo, você não dirá nada. ” Pois bem, se começarmos a entrar nos conceitos esquizoanaliticos, desvendaremos o porquê da falsificação da psicanálise. Primeiramente, é um horror ressuscitar fantasmas, é aquilo que Deleuze e Guattari chamam de decalques, fotos, que são encontradas na memória longa, produção de fantasmas que faz o paciente carregar como uma corrente presa na cabeça, porque uma vez o psicanalista dizendo a palavra de ordem “é isto”, e o paciente concordando, vai fazer produzir uma arborescência, um muro que vai curar uma paranoia com outra paranoia. É aquilo que Nietzsche já havia diagnosticado como má consciência (a culpa é minha) ou o ressentimento (a culpa é sua), a terapia da fala, por assim dizer, nada mais é que um alívio momentâneo, um contrato: deixo minha neurose e levo meu fantasma. Dentro da própria engrenagem capitalista: funcionar para poder voltar a ser escravo, produzir para a sociedade. E isto sob as vestes coloridas da bela palavra de ordem: sua subjetividade. No entanto, esta é apenas a ponta da produção do paranoico, há nesse meio a rostidade, o rosto que aparece como muro branco e com buracos negros. O muro branco sendo aquilo que bloqueia as passagens, quando há a significância, que é a produção do decalque: uma vez significado, há a queda para os buracos negros, ou seja, a subjetivação. E aqui entramos numa questão capital: para que precisamos de subjetivação? Para ressuscitarmos mortos, traumas? Para reproduzir fantasmas, neuroses, em suma, mais paranoia que irá se somar com as que o Estado, a mídia, a política, os professores, o capital já nos subjetivam? Dos agenciamentos dos débeis que defendem a mais-valia, dos pequeno-burgueses que seguem com o enunciado: um dia eu chego lá!? Que sonham mais com o consumo, com o patrão, com a pátria, com a religião, do que viver o próprio gozo pessoal? Ou, o burguês paranoico, o produtor de fantasmas, que tem horror aos fantasmas da perda da riqueza, da vida, das pessoas-objeto, que se subjetivou para a produção da mais-valia sobre a mais-valia. O escravo dos escravos. Não há fuga para o paranoico, ele foi subjetivado demais, o seu inconsciente é uma árvore que crescem raízes de medo, de preconceitos, de maldade, de patriotismo, de divindade, de demônios, de polícia, de ordem, de leis, de vingança, de “justiça”. As palavras de ordem se enraizaram desde a infância e produziram estratos, ele foi educado para ser “vencedor”, para ser um bom cidadão, seus órgãos foram organizados para a utilidade. Voltemos agora para uma questão polêmica. Não seria a esquizoanálise uma nova verdade, uma produtora de palavras de ordens? Mas o que é uma palavra de ordem? Há uma luta linguística entre o verbo “ser” e a conjunção “e”, entre é e e porque um age dando forma a língua e o outro constituí linhas, na esquizoanálise não há a conjunção com é, mas e...e. Deleuze e Guattari nos dão belos exemplos ao citar a gagueira de Godard, não gago na sua fala, mas gago na própria linguagem, de assumir todos os tons da linguagem por causa da sua solidão povoada; Proust, que dizia que as obras-primas são escritas em um tipo de língua estrangeira. Assim a esquizoanálise não reproduz palavras de ordem, mas uma língua estrangeira: a obra de Deleuze e Guattari, como foi dito anteriormente, não brilha para todos, porque, mesmo que traduzida para a língua natal do leitor, ela é ininteligível àquele que foi agenciado pelos exércitos físicos e espirituais, aquele que não consegue se desarborizar. Arborização, raízes que para o esquizo, para o artista são destruídas pelos rizomas: quando tomamos uma obra de um grande escritor nas mãos, já não está no início, ela já começa no meio, o meio que é um platô, um platô que é um ponto de intensidade que nos jogam no rizoma, rizoma que cria as linhas de fuga nos pensamentos; dessubjetivação: não preciso de anamnésia, de fantasmas, preciso de esquecimento, de fuga revolucionária dos significantes, não preciso significar nada, mas furar o muro, “ não é a boa saúde que me faz dizer ‘viva a vida’”, mas minhas intensidades; desfazer os traços da rostidade, desrostificar pelo rizoma que faz a fuga pela arte, pela filosofia; sempre desrostificar os rostos que produzem a má consciência ou o ressentimento, viajante imóvel, nômade parado; não procurar definidos escondidos, nunca se fixar no decalque, mas encontrar mapas; o devir como processo de desejo nunca subjetivado, mas hecceidade. Portanto, não há palavra de ordem na esquizoanálise que diz: “ A esquizoanálise...não tem outro sentido: faça rizoma, mas você não sabe como você pode fazer um rizoma, que haste subterrânea irá fazer efetivamente o rizoma, ou fazer devir, fazer população no deserto. Experimente.” 
Marcos Ribeiro

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