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O MAL ESTAR DA FILOSOFIA — E A SUA FRAQUEZA DIANTE DO FASCISMO NO MUNDO — POR MARCOS RIBEIRO

dezembro 20, 2018 Marcos 0 Comments Category : , , , ,



Todo aquele que pensa está em relação aos homens, em geral, a mais. O homem comum é aquele que se adéqua a norma, desde o nascimento é preparado para isso, sempre houve em todas as épocas normas de conduta e assim, aquele que pensa, ou que vê o mundo diferente, é categorizado como anormal. O filosofo e o artista carregam a sina de Tales, que enquanto olhava para o céu, observando os astros, caiu em um poço. Aquele que pensa, por assim dizer, vive no mundo da lua ou é um lunático. Entretanto, é comum entre aqueles que estão dentro da norma, acreditar que o pensamento é uma faculdade que todos têm, diante dos acontecimentos qualquer um quer emitir suas opiniões, embora sempre haja divergências, e é nesse ponto que o homem que pensa se diferencia daquele que vive apenas na superficialidade, que carrega no seu espírito, se é que ele tem um, apenas dogmas e ideologias, que surgiram não do conhecimento, mas das doutrinas. O que move aquele que pensa, em comum com os outros e que não é estranho aos homens, é o espanto; mas a multidão encontra a saída na formação de opiniões, e o que pensa, ao contrário, se vê em conflito com tais opiniões, como argumenta Hannah Arendt sobre o constrangimento acometido pelo filósofo: “É o único que não sabe, o único que não tem uma doxa distinta e claramente definida para competir com as outras opiniões. ” Diante disso o filósofo é considerado, muitas vezes, o doido da província, passa a ser, como observa Deleuze, o estrangeiro na própria língua, um pária em sua própria pátria. Arendt nos traz uma reflexão para entender o porquê de o filósofo ter esse destino: “Se o filósofo começa a falar dentro do mundo do senso comum, ao qual também pertencem nossos juízos e preconceitos comumente aceitos, ele estará sempre tentado a falar em termos de não-senso (non-sense), ou — para usar a frase de Hegel — a virar o senso comum de cabeça para baixo”. O filósofo, diante disso, perdeu o senso comum necessário para orientar-se em um mundo comum, nos padrões da norma, pois sabe que a multidão se orienta por verdades, e as verdades se fundam naquilo que os religiosos se propõem a aceitar, ou mesmo aqueles que seguem algum tipo de ideologia, e nessas áreas florescem as brigas de opiniões, do qual os filósofos se afastam, uma vez que é sabido que são apenas pontos de vista, ruídos sem fundamentos, e nesse sentido, Humberto Maturana faz reflexões mostrando os equívocos que separam os argumentos lógicos dos ideológicos, tendo em vista que o primeiro se baseia em premissas racionais, por exemplo, se alguém diz que dois vezes dois é igual a cinco, e seu interlocutor mostra como se constitui uma multiplicação, o que estava equivocado concordará, podendo no máximo ficar com vergonha por sua vaidade ter sido atingida, entretanto sobre as divergências ideológicas aparece uma outra questão que implica algo em que não se pode provar, assim Maturana diz: “As divergências ideológicas são vividas por nós como diferenças transcendentes: não reconhecemos o erro lógico, e acusamos o outro de cegueira ou burrice". As premissas deste modo seguem de domínios racionais distintos, em suma, afirmar que algo ou alguém está equivocado, é dizer que está de posse da verdade, que tem acesso à realidade, entretanto, da mesma maneira, a outra parte sempre dirá que quem está equivocado é o outro. Assim se constroem os diálogos do senso comum, que vão desde as conversas sobre fofoca do dia a dia aos dos acadêmicos que foram doutrinados, onde as ideias que fazem parte de seus círculos partem sempre de algo exterior, aquilo que Freud entendeu como superego, ou uma moral controladora vinda de fora. Maturana nos mostra como a linguagem se dá no mundo. Para o chileno, a linguagem não se encontra no corpo e sobre isso ele diz: “Tenho um cérebro que é capaz de crescer na linguagem, mas a linguagem como fenômeno, como um operar do observador, não ocorre na cabeça nem consiste num conjunto de regras, mas ocorre no espaço de relações e pertence ao âmbito das coordenações de ação, como um modo de fluir nelas”. Assim, se a linguagem cresce fora do cérebro, e pensando junto com Wittgenstein quando diz, “Os limites da minha linguagem denotam os limites de meu mundo”, chegamos ao mal estar da filosofia, do mal estar daquele que pensa, que estudou, que busca a todo momento a contradição para chegar ao pensamento, enquanto a linguagem da multidão se restringe somente àquilo que a fizeram acreditar, enquanto isso aquele que busca as explicações para o seu estarrecimento, se torna de outro mundo, tudo que ele diz se torna ininteligível aos que vivem ao seu redor, e assim ele fica preso dentro da sua mudez. Mesmo diante das atrocidades que ele enxerga e que o constrange, ele se vê obrigado a voltar para sua solidão, e o que ele pode fazer é se proteger, não é novidade a misantropia naquele que pensa, ele se dá conta que o contato com o ser humano embrutecido é um risco, este por estar distante do reconhecimento de bem e mal, porque não pensa, e é por sua superficialidade que pode penetrar o mal, pois o mal não aparece necessariamente de pessoas cruéis, mas dos superficiais, que ao contrário do bem, como pensou Hannah Arendt, é radical, é preciso ter raízes, como detalha a pensadora judia para o entendimento do que é o mal quando relembrando uma passagem de Kant, cita: “a estupidez é fruto de um coração perverso”, ela diz que tal afirmação, desta maneira formulada, não é verdadeira, uma vez que a maldade não reside precisamente no coração perverso, mas a irreflexão, assim como a estupidez são fenômenos bem mais frequentes que a maldade. Nesse sentido, para prevenir o mal, seria antes de tudo, em termos kantianos, preciso o uso da filosofia, isto é, o exercício da razão como faculdade de pensar, e citando o que Platão definiu como o pensamento, o diálogo sem som, de mim comigo mesmo, o dois-em-um. O mal surge, então, da incapacidade das pessoas em examinar, refletir, sobre tudo aquilo que vem a acontecer. Ora, as ideologias aparecem, e mesmo em tempos de paz, sempre há os discursos de ódio, os pré-conceitos, e tudo embasado em verdades, verdades absolutas onde o mal reside, como foi dito anteriormente sobre a norma onde aqueles que se desviam ou são doentes ou são inimigos. Verdades que nasceram do doutrinamento, do adestramento, de quem não se reconhece como autor, mas sempre como verdades baseadas no além, em conjunto de regras, ou para usar termos stirneanos, de fantasmas ou de ideias fixas. Pois, sendo o pensamento diferente da consciência, acontece que sem a consciência o pensamento se torna impossível, e o que acontece nas pessoas superficiais é que não há o pensamento, tendo em vista que o pensamento só surge quando forçado. Resta, portanto, ao que se afasta das questões que fazem o pensamento fluir, apenas dialogar com aquilo que ela adquiriu via doutrinação, de fora, não há o dois-em-um, o estar em harmonia comigo mesmo. Enquanto o filósofo perdeu o senso comum, o vulgo se perdeu nos formadores de opinião, para se proteger nas fugas de si mesmo, para não se voltar a si e por isso não entrar em desacordo com a sua consciência moral e ver o quanto de mal produziu em sua vida. Consciência moral que seria como um espelho para mostrar a sua própria miserabilidade. Diante das disparidades que o pensador sofre diante dos comuns, resta-lhe o isolamento, porque o mal estar da filosofia se dá por ser sinônimo de loucura — não falamos da filosofia dos profissionais, que só existe na aparência, porque trabalha a serviço do Estado e das instituições oficiais, e por isso é falsa porque produz verdades, e se assim for, entra no campo das religiões e das ideologias, sendo que só há a possibilidade de fazer o pensamento se movimentar, de degelá-lo, tirar o gelo dos pensamentos congelados, quem não traz e nem produz nenhuma verdade definitiva, que nada responde, ou numa explicação mais sucinta, como no pensamento socrático que Hannah Arendt nos faz paralisar, apenas por um momento: “Esses pensamentos congelados ...são de acesso tão fácil que se pode usá-los até durante o sono; mas se o vento do pensamento, cujo despertar agora provoco, acorda-o de seu sono, deixando-o desperto e muito vivo, então você verá que nada traz nas mãos senão perplexidades, e o máximo que se pode fazer com elas é compartilha-las.”


Marcos Ribeiro

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