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MAX STIRNER: A FILOSOFIA DO ÚNICO POR MARCOS RIBEIRO E ANDRÉ ANACORETA

novembro 27, 2018 Marcos 0 Comments Category :


O silêncio que Max Stiner provocou durante os séculos, gerará num futuro um estrondo tal como disse Heine: nada é mais silencioso que um canhão, antes do tiro. Impossível ao final da leitura de sua obra magna, O único e a sua propriedade, ficar indiferente, não enxergar o mundo com outros olhos; ao ver como o autor dissecou conceitos até então imexíveis, petrificados, intocáveis. Com seu estilo venal, e por vezes, elegantemente estrondoso, não deixou saída àqueles que defendiam um sistema de ideias como se tais fossem uma revelação vinda dos céus. Embarcar na leitura de O único, não é coisa que se faça ingenuamente; o livro te lança num mar tempestuoso onde todos os valores tidos como invioláveis naufragam como barcos que perderam o rumo, onde só resta ao egoísta (esse difamado) resgatar a própria existência e se afirmar como indivíduo, como único. Mas será que a salvação se encontra no egoísmo? Será o egoísta alguém em quem podemos confiar?Para Stirner, antes de tudo, não há nada que seja sagrado, intocável, fora de seu poder, ou, acima dele. O autor lembra que para as crianças pequenas e para os animais, não há nada de sagrado: Deus; Estado; leis; moral; família; religião; verdade; partidos; ideologias etc., pois a criança não pode conceber a ideia de certo e errado, bem ou mal ou justo e injusto. Isso implica que consideramos qualquer coisa fora de nós como mais poderosa, mais justa, maior. Ora, qual indivíduo que, livrando-se de seus dogmas, não notaria que são estes apenas fantasmas que saíram das cabeças dos homens, e que por sua vez, tornaram-se criaturas que passaram a governa-los? O Estado não pode desistir da ideia de que suas leis e ordens são sagradas. E o indivíduo é considerado então como um ímpio (bárbaro, egoísta, primitivo) que está contra o Estado, tal como era antes considerado contra a Igreja; ante o indivíduo, o Estado assume a auréola de um santo. Stirner aponta que os homens se tornaram escravos de ideias fixas, quer dizer, ideias que se perpetuaram como sagradas. O Estado, esse senhor do povo, concede aos cidadãos, à sociedade, os direitos que ele, o Estado, quer conceder, negando ao indivíduo – que é único – a sua voz. Diz o Estado: “eu dou direito ao povo, eu dou-lhes liberdade”, mas o que o povo tem a ver comigo? Sou eu quem decide se uma coisa é justa em mim; fora de mim não há direito ou justiça. Se uma coisa é justa para mim, é justa. Porque justiça é um conceito pelo qual todos têm que responder, não importa se esse “todo ” não atenda às minhas exigências. Então tenho que me curvar à justiça, porque ela diz que é justa? A questão suscitada é que vivemos a todo momento sob o julgo dos egoístas, daqueles que se rebaixam para poderem ser elevados, que é o mesmo que dizer: para satisfazer seus egoísmos. Como o egoísmo é algo de que é preciso se livrar (Por amor a Deus e a humanidade), procuram no céu e na terra seres superiores a quem servir e a quem se sacrificar. E tudo isso para fazer valer o interesse pessoal. Todos somos egoístas; somos homens que nasceram livres, mas, para onde quer que olhemos, vemos como nos transformaram em servos de egoístas! A diferença é que os famigerados (o egoísta involuntário) escondem seu egoísmo sob a máscara da hipocrisia, do mandamento cristão, do amor ao próximo. Nem Deus, nem o Estado, nem a natureza, nem os direitos humanos, nem as leis, me governam. Somente meu egoísmo pode apontar o que sou e o que posso ter. Sem querer receber privilégios dos outros, pois eu quem concedo o meu privilégio. Os humanistas falam de liberdade para o povo, de direitos iguais, de leis mais justas. Mas, que liberdade é essa? Direito para quem? Leis para defender quem? Pensemos, juntos com Stirner, o que é liberdade: “A ‘liberdade' é e sempre será uma nostalgia, um lamento romântico, uma esperança cristã no além e no futuro [...] A liberdade ensina apenas: Libertai-vos, desembaraçai-vos de tudo que vos pesa. Não obstante não vos ensina quem sois. Fora, fora! é o seu lema,e vós, seguindo ansiosamente este apelo, até de vós próprios vos livrais, renegando o vosso próprio ser”. Stirner identifica a liberdade como sendo uma ilusão usada para guiar e ordenar as massas, já que liberdade é um conceito, ou melhor, uma ideia fixa, a qual se é impossível alcançar, pelo fato de que quando pensamos alcança-la, acabamos por cair em outra prisão. Você quer a liberdade no casamento para ter outras mulheres? Livra-se do seu casamento. Não? Então não quer a liberdade, quer possuir a mulher do outro, tomar ela como propriedade. Quer mais liberdade no seu trabalho? Se livra do seu trabalho, ou quer tomar como propriedade um outro trabalho, mais tranquilo, ganhando mais, em suma, quer estar preso a outras coisas: você não quer a liberdade, o que deseja é a propriedade: “Não tem o espírito sede de liberdade? Mas, de que coisa te queres libertar, do teu pão seco e do teu colchão de palha? Então joga-os fora! -Mas, pelo visto, isso não te satisfaz; tu preferes a liberdade de desfrutar de belos manjares e camas macias. E os homens deveriam dar-te esta 'liberdade', permitir-te tê-la? Tu não esperas isso do seu amor ao próximo, porque sabes que todos eles pensam como tu: o próximo começa em nós próprios! Como queres tu então chegar a desfrutar daquelas iguarias e camas? Sem dúvida fazendo delas propriedade tua!". Em oposição à ideia de liberdade, Max Stirner propõe o que ele chama de “a singularidade-do-próprio”, que diz: "Volta a ti, sob a égide da liberdade perdeis muita coisa, contudo outras, novas, voltam a oprimir-vos [...] Não busqueis a liberdade que vos rouba a vós próprios pela ‘abnegação’, mas procurai-vos a vós próprios, tornai-vos egoístas, e que cada um de vós se torne um eu todo-poderoso". É sabido que o que obscureceu a singularidade-do-próprio, o egoísta, foram os milênios de cultura que fizeram com que o homem negasse a si mesmo em nome do ideal do homem, em outras palavras, do “homem bom”, do filantropo, do cristão, do homem de moral irrepreensível. Contudo, mesmo que se faça algo em nome de um ideal, faz-se, na verdade, em nome de si mesmo, pois o que se esconde sob a roupagem da virtude é o interesse privado; diz fazer para o bem de todos, para a humanidade, para os pobres; no entanto espera – por parte da sociedade ou do divino – uma retribuição, ou seja, faz para si próprio. O Estado finge que dá o direito a todos igualmente, finge porque dá o direito mas não dá o poder; e só tem direito quem tem poder. Conclui-se com isso, que o direito não existe, ele está a serviço do poder. Por que o poder ao povo é uma palavra oca, revela Stirner, porque o povo não tem poder. Há, por ventura, entre vocês leitores, algum otimismo em desmentir isto? Não são os homens de poder que constituem as leis? E se são eles, nada mais natural que as curvar aos seus interesses egoístas. Pois bem, pode-se dizer, e o juiz, não é a sua função zelar para que a lei seja cumprida? Não vivemos em um Estado de direito? Em uma democracia onde a justiça deve ser igual para todos? Tem o mesmo direito o povo em comparação com aqueles que detêm o poder? Tem o mesmo direito o pobre proletário que produz os bens que enchem os bolsos dos ricos em comparação com o banqueiro e o parlamentar? Claro que não! O povo não tem voz, porque sendo ele um espectro, não pode reclamar nenhum direito. Só poderia ter voz o indivíduo, mas os indivíduos, que são reais, passam a ser inexistentes porque o Estado por ser uma máquina, não os pode enxergar, não os compreendem, cuida para o bem comum do homem, do ideal homem, do fantasma homem, e não do indivíduo. E o egoísta se submete a esse ser sagrado sem o contestar, porque se se peca contra Deus é um herege; se se desobedece às leis do Estado, um criminoso. Em ambos os casos, um egoísta. Se o indivíduo é dotado de uma consciência, o Estado nega essa consciência por meio de suas leis e suas instituições, moldando a opinião pública a favor de seus próprios interesses; utiliza-se para tanto, de seus aparatos e de seus falsos benefícios como a liberdade de imprensa. Mas o que a liberdade de imprensa faz para mim enquanto indivíduo, tirarei algum proveito em relação a liberdade de imprensa? Se é mais que sabido que a imprensa anda de mãos dadas com o Estado e com aqueles que permeiam o poder, Stirner traz à tona o que é essa liberdade: "Se um povo tiver liberdade de imprensa, eu, apesar de estar no meio desse povo, não a tenho: uma liberdade do povo não é a minha liberdade, e a liberdade de imprensa como liberdade do povo tem de ser acompanhada por uma lei de imprensa dirigida contra mim. Contra as atuais pretensões de liberdade, é preciso que fique claro o seguinte: A liberdade do povo não é a minha liberdade!". O Estado, como mostrou Stirner, é um fantasma que governa o homem; e o homem, por sua vez, por se tratar também de um fantasma, aceita tudo como se a palavra do Estado fosse a palavra de Deus; afinal, ora, o que é o homem? Senão um ideal que impede que eu seja eu! "Imagina que alguém te queria fazer que tu não és o teu eu, que fulano ou beltrano é que são esse seu eu! Mas é isso que acontece com o povo, e é bem-feito. Porque o povo tem tão pouco um eu como os onze planetas, todos juntos, têm um eu, apesar de todos girarem em volta de um centro". Convenhamos, o Estado fala bonito, mas deseja o bem para o seu povo como o leão o faz com suas presas; oferece o "direito", mas impõe o dever. A constituição está repleta de direitos fabulosos; suas palavras de ordem ecoam nos dizendo que o sol nasceu para todos: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza...". Todavia a contradição é latente – e nisso a revelação de Stirner é atemporal – "com uma mão-cheia de poder vai-se mais longe do que com um saco cheio de direitos". Por acaso, alguém entre vocês, duvida disso? Posto na balança da justiça, o direito é uma pena, enquanto o poder, de tão pesado, é capaz de destruir a própria justiça. E isso é tão corriqueiro, que o povo já não tem mais saco para acreditar no direito, deste modo não há outra saída a não ser se submeter ao Poder. O Estado é uma entidade, onde todos podem ter "acesso"; malgrado tenhamos que ter um passaporte que nos possibilite adentra-lo. E esse passaporte não é uma conquista do indivíduo, por suas capacidades, mas somente concedido por Ele. O Estado concede o direito da livre concorrência – que maravilha! "Entretanto será a 'livre concorrência' verdadeiramente 'livre', ou será mesmo uma 'concorrência' a título 'pessoal', como se quer fazer ver, porque o seu direito se funda nesse título? Em sua origem está a libertação de todas as pessoas em relação às dominações pessoais. Será 'livre' uma concorrência que o Estado, esse soberano do princípio burguês, dificulta com toda a espécie de barreiras?" Como pode a concorrência ser livre, se não são todos os que podem ter acesso aos meios de concorrer? O Estado designa quais são esses "meios"; a capacidade do indivíduo não basta, é preciso que se tenha aquilo que o Estado quer: o dinheiro; o espaço para construir etc., se eu souber mais que um especialista, em uma determinada área, não tenho o "direito" de professar meu conhecimento em um determinado lugar. Falta-me o grau, a "coisa", que me são concedidos pelo Estado; em suma, só o Estado, meu dono e senhor, me permite entrar na concorrência. Diante disso, somos obrigados a dobrar os joelhos a idiotas oficiais, só porque foram-lhes "dados" títulos de doutor. “Um homem será aquilo que pode ser. Um poeta nato poderá, se as circunstâncias lhe não forem propícias, ser impedido de chegar aos desenvolvimentos máximos do seu tempo e de criar obras de arte acabadas, depois de fazer os imprescindíveis grandes estudos; mas não deixará de escrever poesia, quer seja trabalhador do campo, quer tenha tido a sorte de viver na corte de Weimar. Um músico nato fará música, não importa se em todos os instrumentos ou apenas em uma flauta de bambu. Uma cabeça filosófica nata pode afirmar-se como filósofo de universidade ou de aldeia. E, por fim, um imbecil nato, que pode ser ao mesmo tempo um grande manhoso, o que não é incompatível, provavelmente sempre será uma cabeça muito limitada, como todas aquelas que foram à escola e se lembrarão de outros companheiros igualmente tacanhos, quer tenha sido treinado para ser chefe de escritório quer para servir de engraxador para esse chefe [...] é a isso que se apega a clique clerical da religião, da moralidade, da educação, da ciência etc.”. O homem só será levado em conta, só receberá seu título de "cidadão de bem" se estiver inserido nos valores do "homem", da humanidade: o trabalhador, o profissional, o responsável, ou seja, o ideal criado. O que tem objetivos; o patriota; o voluntário; seja no Estado burguês seja no comunismo. Porque em ambos há a ideia de bem geral, e seja governado por um grupo, ou pelo povo, o indivíduo sempre será execrado. Pois, no final das contas, o que há é uma igualização, uma homogeneização do homem. Negando a singularidade do indivíduo. "Quando o comunista vê em ti o ser humano, o irmão, esse é apenas o lado dominical do comunismo. Do ponto de vista do 'dia útil', ele não te vê como um ser humano sem mais, mas antes como um trabalhador humano ou homem trabalhador. O primeiro ponto de vista denota o princípio liberal, o segundo esconde o iliberalismo. Se tu fosses um 'preguiçoso', ele não desconheceria o homem em ti, contudo procuraria purificá-lo da preguiça para te converter à crença de que o trabalho é 'o destino e a vocação' do ser humano". Sendo assim, não há nenhuma forma de governo benéfica ao indivíduo, ao único. Toda forma de poder impede a singularidade-do-próprio, mesmo nas chamadas "revoluções anarquistas", pois para o egoísta não importa a propriedade alheia, importa ele enquanto sua propriedade. Toda forma de revolução depende de fatores externos, que estão fora do indivíduo; deste modo, a revolução visa o povo, visa a criação de outras instituições, como se o revolucionário dissesse: "derrubemos este poder, e erguemos outro melhor em seu lugar". Porque à revolução importa tão somente a mudança da ordem vigente; ela quer derrubar o poder, mas acaba por criar outros poderes, outros líderes. Tirar o governo das mãos de alguns para o dar às garras do povo; este transforma-se no tirano do indivíduo, no novo Deus que julgará a sorte de todos. Já para Stirner, a superação da revolução está na revolta. Porque a revolta parte do indivíduo; vem de dentro para fora; não é revoltado contra esta ou aquela causa; contra este ou aquele governo, mas contra qualquer forma de poder que não seja o seu próprio. Na revolta o indivíduo se eleva, na revolução se limita à criação de novos ideais que não são os seus, mas para o bem comum. Contudo, Stirner imagina, ainda, a possibilidade de uma associação de egoístas; um clube dos egoístas. Onde não há juramento a bandeiras, tão pouco normas ou leis que regularizem o que os associados devem ou não fazer. Visto assim, a associação é a união entre e para os indivíduos. Na associação não há limitação, submissão a um poder; não há sujeição. Deste modo, a singularidade-do-próprio é mantida, uma vez que os indivíduos estão ligados, provisoriamente ou não, por um acordo mutuo. E assim supera-se o Estado, a religião, Deus, a moral, etc. Porque a associação é a dissolução da sociedade; ela é uma união, pois a união representa o processo de unir-se sem cessar, sem nunca tornar-se coisa fixa; pois se se tornar coisa fixa, torna-se comunidade (comunismo); torna-se sociedade (socialismo); torna-se partido e para todos estes fantasmas, o egoísta diz: "Estás tapando-me o sol!". Fantasmas estes que correm em paralelo com o que Stirner diz sobre os possessos: “Alguma vez viste um espírito? 'Não, eu não, mas minha avó sim.' Pois é, comigo acontece o mesmo; eu mesmo nunca vi nenhum, mas para minha avó estavam sempre atravessando-lhe o caminho, e, como confiamos na honestidade de nossa avó, também acreditamos na existência de espíritos". Portanto, o cerne do pensamento stirneano, é a afirmação da própria identidade. E nem no amor, amamos por amor aos outros, mas por egoísmo; e por ser o amor irracional, ele apenas desempenha a sua função. “Tenho sim-patia para com todos os seres sensíveis, e a sua dor dói-me, o seu alívio alivia-me a mim também [...]se vejo sofrer a pessoa que amo, eu sofro com ela e não descanso enquanto não tentar fazer tudo para a consolar e animar; e se a vejo alegre, também eu me alegro com a sua alegria. Daqui não se conclui que aquilo que nela provocou dor ou alegria tenha o mesmo efeito em mim, como mostra aquela dor física que eu não sinto como ela: a ela dói-lhe um dente, a mim dói-me a sua dor. Como eu, porém, não posso suportar a ruga de preocupação na testa da pessoa que amo, beijo-a para que ela desapareça: faço-o por mim. Mas se eu não amasse essa pessoa, ela podia ter as rugas que tivesse, que a mim não me preocupariam [...] Propriamente meu, o meu amor só o é se consistir num interesse totalmente pessoal e egoísta, e então o objeto do meu amor será verdadeiramente o meu objeto ou a minha propriedade. Não devo nada à minha propriedade, não tenho deveres para com ela, tal como também não tenho deveres para com o meu olho; se, apesar disso, o protejo com todo o cuidado, isso acontece apenas por amor de mim [...] O amor não se pode pagar, ou melhor: o amor pode, de fato, pagar-se, mas só com amor". À guisa de finalizar esse elogio ao egoísta e a este pensador tão ocultado de nossas vistas, cabe-nos refletir se devemos seguir e nos curvar aos fantasmas aqui mencionados, ou – senhores de nós mesmos! – rasgar o véu no qual os hipócritas escondem suas faces atrás da religião do amor; do laço de família; do amor à pátria; do dever às autoridades. Porque nada me governa, nem do céu, nem da terra. Nem os idiotas, nem os sábios, a não ser eu. Alguém interpretou mal este texto? Essa ode ao egoísmo? Esse suspiro ao solitário-maldito Max Stirner? Pois bem: "Se tenho ou não razão, o único juiz que o decide sou eu próprio."

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