Harmony Clean Flat Responsive WordPress Blog Theme

Democracia, quem é esta senhora?

outubro 29, 2018 André Anacoreta 0 Comments Category :



A palavra tem sua origem na civilização grega, a terra dos filósofos, os amigos da sabedoria que confrontaram o poder dos deuses e sopraram os ventos que moveriam as velas da ciência moderna para as grandes descobertas. Mas a democracia não nasceu num berço de liberdade, a civilização que a pariu tinha sua força de produção na exploração do trabalho escravo, as mulheres não tinham qualquer poder de decisão nas questões políticas da sociedade grega e na vida social estavam destinadas a ficarem à sombra dos homens. A democracia só era válida para um número de cidadãos considerados livres pelo sistema então vigente, ou seja, a democracia que significa poder do povo, governo do povo, não foi praticada pela própria civilização que a criou.
No entanto o conceito de democracia sobreviveu aos séculos de obscurantismo que afundou o ocidente e ressurgiu no mundo moderno como a grande promessa que garantiria a paz e a ordem. Em seu nome guerras foram travadas e milhões perderam as vidas acreditando que o povo seria o seu próprio governante. Desde então essa palavra vem sendo usada para mil artifícios que possam garantir que o poder continue favorecendo uma minoria acostumada a lavar as mãos com sangue.
Não há risco nenhum em dizer que nunca houve e nem existe um país sequer democrático, isso porque a democracia não passa de um conceito utilizado para disfarçar a tirania. É preciso criar a sensação de que, de alguma forma, o povo participa nos rumos dos acontecimentos da sociedade, a sensação de que é ele quem escolhe como o país será governado. Gigantesca ilusão. Para tal monta-se o teatro eleitoral, a chamada democracia representativa, em que o eleitor vota para garantir a manutenção do sistema que faz dele um escravo com título. Muda-se o cozinheiro, mas os ingredientes do prato continuam os mesmos, pois o menu principal deve agradar o gosto dos ricos que deixam os restos para que os pobres disputem entre si.
É impossível que exista democracia num mundo cujo sistema é regido por aqueles que controlam o dinheiro, num sistema baseado na exploração do trabalho pelo lucro. A existência de um poder, seja ele qual for, desfaz qualquer possibilidade de igualdade política, social e econômica, porque cria necessariamente classes privilegiadas e classes exploradas. O sistema capitalista não pode sobreviver num mundo de harmonia e justiça social, isso seria o seu fim, uma vez que o capitalismo se alimenta das crises que causam todo tipo de miséria e destruição, as guerras são suas molas propulsoras.
Mais do que na Grécia antiga, hoje a democracia serve para perpetuar uma sociedade de escravos obedientes remunerados, que vendem suas vidas em troca do conformismo consentido. Nenhum político que esbraveja por democracia, por mais que tenha boa vontade, será capaz de enfiar um punhal no coração do monstro que a devora e que sempre silenciou as vozes que gritaram por mudanças reais. O máximo que pode vir de um político são arranjos temporários na máquina capitalista, aceitando as regras do jogo sujo burguês, que não tolera desvios de conduta por muito tempo.
Não podemos esperar mais pela ideia ingênua de um mundo novo que está porvir e ele não virá do ventre da democracia, porque ela carrega em sua essência a garantia de um poder, e mesmo que seja em nome do povo toda forma de poder acaba resultando em opressão. Nossa luta precisa ser contínua individual e coletiva no aqui e agora, sem depender de representantes de nenhum tipo, nos preparando cotidianamente para combater toda forma de tirania que vier. A tirania dos doutores, dos religiosos, dos moralistas e dos endinheirados.
As palavras sempre foram usadas como arma para iludir e segregar, com as mãos sobre a bíblia os governantes juram que cumprirão os preceitos da democracia, eles a idolatram porque sabem que é inofensiva para derruba-los, é inócua para mudar a realidade. A arma deles não pode ser a nossa, a democracia deles não nos serve. Nossas palavras são outras e nossos objetivos não passam pala aprovação dos sacerdotes da verdade. É pela ação direta, autonomia, autogestão, cooperação, apoio mútuo, solidariedade, emancipação que vamos construir nossa frente de ataque. E é por nosso posicionamento crítico e não aceitação de qualquer ordem imposta que vamos erguer os muros de defesa.
Que nossa arte seja a nossa resistência e nossa resistência seja a nossa arte.

André Anacoreta      

RELATED POSTS

0 comentários