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DELEUZE E GUATTARI VERSUS FREUD, por Marcos Ribeiro

setembro 24, 2018 Marcos 0 Comments Category : , , , ,



Sobre Freud e o complexo de Édipo

O cerne das descobertas de Freud pode se entender da seguinte maneira: a origem das neuroses se dão quando sentimos um desejo de ordem primeva, quer dizer, dos instintos sexuais e o reprimimos. Muitas vezes esses desejos estão associados à ideia de mau, que vai de encontro à moral, entendido também como superego, por isso em muitos casos o reprimimos antes que esse pensamento se instale no consciente, e sem se notar ele é expulso para o inconsciente. Nas palavras de Freud: "Obtemos assim o nosso conceito de inconsciente a partir da teoria da repressão. O reprimido é, para nós, o protótipo do inconsciente. Percebemos, contudo, que temos dois tipos de inconsciente: um que é latente, mas capaz de tornar-se consciente, e o outro que é reprimido e não é, em si próprio e sem mais trabalho, capaz de tornar-se consciente". Freud criou então, diante disso, a terapia da fala, para através do que ele chamou de livre associação, o paciente diante da autoridade do psicanalista, dizer o que vier à mente, para que em algum momento revele aquilo que ele não diria a ninguém, inclusive a ele próprio. Disse Freud: " O estado em que as ideias existiam antes de se tornarem conscientes é chamado por nós de repressão, e asseveramos que a força que constitui a repressão e a mantém é percebida como resistência durante o trabalho da análise". Assim, o ego representando o que pode ser chamado de razão é como um cavaleiro que tem de manter controlada a força superior do cavalo: o id, que é o que contém todas paixões. Diante dessa corrida de cavalos, Freud imaginou mecanismos de defesa para as neuroses, entre eles, a sublimação, que substitui, em certo grau, a satisfação sexual, desviando a tensão gerada pelos impulsos e afastando a libido do objeto sexual. A sublimação que se dá por meios negativos como a fofoca, a violência, o fascismo, ou realizações positivas para a sociedade, como as realizações artísticas ou científicas: "se essa energia deslocável é libido dessexualizada, ela também pode ser descrita como energia sublimada, pois ainda reteria a finalidade principal de Eros [...] então a atividade de pensar é também suprimida pela sublimação de forças motivados eróticas". As neuroses, então, para Freud, são efeitos das primeiras identificações na mais primitiva infância, que serão gerais e duradouras ao qual podemos definir a libertação com educação progressiva para superar em cada um de nós os resíduos da infância. Não é preciso ir muito longe para entender que Freud está associando as neuroses ao complexo de Édipo, como ele diz: “o ideal do ego tem a missão de reprimir o complexo de Édipo; em verdade, é a esse evento revolucionário que ele deve sua existência[...] O superego retém o caráter do pai, enquanto que quanto mais poderoso o complexo de Édipo e mais rapidamente sucumbir a repressão... , mais severa será posteriormente a dominação do superego sobre o ego, sob a forma de consciência ou, talvez, de um sentimento inconsciente de culpa”. Isso se dá porque, a criança do sexo masculino, em idade muito precoce desenvolve a catexia objetal pela mãe e o desejo sexual do menino em relação à mãe se tornam mais intensos e o pai é percebido como obstáculo a ele; disso se origina o complexo, já no caso da menina, Freud explicou o complexo, a princípio, pela castração: “Seu afastamento da mãe, sem dúvida, não se dá de uma só vez, pois, no início, a menina considera sua castração como um infortúnio individual, e somente aos poucos estende-se a outras mulheres e, por fim, também à sua mãe. Seu amor estava dirigido à sua mãe fálica; com a descoberta de que sua mãe é castrada, torna-se possível abandoná-la como objeto [...]O desejo que leva a menina a voltar-se para seu pai é, sem dúvida, originalmente o desejo de possuir o pênis que a mãe lhe recusou e que agora espera obter de seu pai. No entanto, a situação feminina só se estabelece se o desejo do pênis for substituído pelo desejo de um bebê, isto é, se um bebê assume o lugar do pênis, consoante uma primitiva equivalência simbólica”. Freud, com isso, buscou por meio da análise encontrar no paciente aquilo que foi reprimido e que é o causador das neuroses, para tornar possível fazer o ego dizer o que quer, para dizer o que se acha escondido por trás do pavor que o ego tem do superego, medo da castração, da consciência, da morte.

Sobre Deleuze e Guattari e o Anti-Édipo

Deleuze e Guattari, acusaram Freud de reduzir o inconsciente ao teatro e de introduzir o Édipo a sociedade, entretanto a sociedade é anterior ao Édipo, transformando-o em parasita da consciência onde há para psicanálise muitos desejos no inconsciente, e que para a esquizoanálise, não há desejos suficientes. E além disso, a psicanálise a partir das ideias de Freud se tornou uma máquina automática de interpretação, fazendo com que o que quer que se diga sempre quer dizer outra coisa e com isso é ignorado o desejo porque sempre há a tentativa de integrá-lo a modelos. Deleuze e Guattari entenderam que o desejo não depende de uma falta, mas de ser apenas produção. Todo desejo é uma continuidade do fluxo toda interpretação do mundo está relacionada ao que o olho vê, entretanto, o paciente que se deita no divã sofre um processo segregativo onde se diz: “Então era isso que isso queria dizer”, criando um processo de cura interminável, pois a interpretação põe obstáculos à cura porque desde que nos colocam no Édipo, desde que nos comparam com Édipo, tudo se resolve, substituindo as unidades de produção inconsciente pela representação; substituindo o inconsciente produtivo por um inconsciente que podia tão somente exprimir-se. Vemos que há um ponto crucial nessa crítica, que pode-se dizer até sádica por parte do psicanalista, a questão da anamnésia, de buscar, escavar na memória longa do paciente supostos traumas, que é o mesmo que ressuscitar fantasmas, monstros. Deleuze e Guattari nos trazem questões para pensar que as alucinações de Freud em crer que as neuroses seriam explicadas pela arqueologia do mito, da tragédia, do sonho (Édipo e castração) não seriam mais que uma forma de bloquear o desejo e a partir disso ajudar na produção do paranoico que percorre o campo social na busca desejante do capitalismo, como é dito no Anti-Édipo: “Na incurável insuficiência do ser, uma falta de ser que é a vida. Disto deriva a apresentação do desejo como apoiado nas necessidades [...] o mundo não contém todos os objetos, falta-lhe apenas um, o do desejo. ” Freud, segundo Deleuze e Guattari, fugiu dos esquizofrênicos, por estes resistirem à edipinização, tratando-os como bestas. Há essa distinção, o esquizofrênico situa-se no limite do capitalismo, que mistura os códigos e é portador dos fluxos descodificados dos desejos, e “toda vez que se reconduz ao eu o problema da esquizofrenia”, dizem os franceses, “só resta ‘apreciar’ uma suposta essência ou especificidade do esquizo, seja com amor ou piedade, seja para cuspi-lo com nojo”. Deleuze e Guattari invertem a relação das normalidades, e concluem que o campo social produz dois tipos de investimentos na sociedade, o paranoico, que é aquele que aceita a escravidão no campo da imanência burguesa, que aceita ser peça da produção na antiprodução, que se sujeita a escravidão onde não há senhores, mas apenas escravos comandando escravos, o que carrega a carga no lugar do animal que antes fazia o trabalho; do burguês que absorve a mais-valia para fins que em seu conjunto, não tem nada a ver com o seu gozo. Assim o primeiro investimento está dividido entre o escravo e o escravo dos escravos, paranoicos que se sentem perseguidos pelo capitalismo, pelos horários, pelos compromissos, pelos medos de falência etc. O segundo investimento é o esquizo, o nômade, aquele que fugiu da opressão burguesa, que não aceita mais a moral, a pátria, a identidade, o sucesso, o sonho. Enquanto que o paranoico está preso ao triangulo familiar, quando sente acuado pela própria paranoia, pelos próprios bloqueios, refugia-se, procura o papai-psicanalista para vomitar seu esgoto e encontrar uma cura no Deus-Édipo, no Deus-pai, criando um novo problema na própria solução. Enquanto a esquizoanálise, segundo Deleuze e Guattari, “se propõe desedipianizar o inconsciente para chegar aos verdadeiros problemas...para além de toda lei”.

A origem da proibição do incesto em Freud

Se as neuroses para Freud, são efeitos das primeiras identificações na mais primitiva infância, do complexo de Édipo, ele buscou na antropologia argumentos para corroborar às suas descobertas e entendeu que o horror do incesto surgiu a partir do totem e tabu. O totem que via de regra é um animal ou raramente um vegetal que mantem relação peculiar com um clã. A partir disso, diz Freud, os primeiros sistemas penais humanos foram remontados ao tabu. A fonte do tabu por ter atributos mágicos passou a ser com o tempo, transmitidos a objetos inanimados e a pessoas, Freud cita: “ Assim reis e chefes se acham possuídos de grande poder, e dirigir-se a eles diretamente significa morte para os seus súditos; mas um ministro ou outra pessoa de maior mana que o comum podem aproximar-se deles ilesos e por sua vez, podem ser abordados por seus inferiores sem risco [...] pouco a pouco, é o que tudo indica, o tabu vai-se transformando numa força independente da crença, em demônios. Desenvolve-se nas normas do costume e da tradição e finalmente na lei”. A partir desta explicação, o termo fundamental para a compreensão freudiana é ambivalência (simultaneidade de dois sentimentos opostos) para remontar a origem do totem, o animal totêmico é, na realidade, um substituto do pai. Na organização primitiva o pai violento e ciumento que guarda todas as fêmeas para si próprio e expulsa os filhos à medida que crescem. Certo dia, os irmãos que tinham sido expulsos retornaram juntos, mataram e devoraram o pai, colocando um fim à horda patriarcal: odiavam o pai, que representava um obstáculo tão formidável ao seu anseio de poder e aos desejos sexuais, mas amavam e admiravam-no também. Após terem-se livrado dele, a afeição que todo esse tempo tinha sido recalcada estava fadada a fazer-se sentir e assim o fez sob a forma de remorso, o pai morto tornou-se mais forte morto do que vivo e partindo disso a nova organização terminaria, embora os irmãos se reuniram em grupo para derrotar o pai, todos eram rivais em relação às mulheres. Cada um queria, como o pai, ter todas as mulheres para si, mas nenhum deles tinha força predominante a ponto de ser capaz de assumir o lugar do pai com êxito, assim depois de passarem por muitas crises perigosas, instituíram a lei contra o incesto, pela qual todos renunciavam as mulheres que desejavam que tinha sido motivo de se livrarem do pai. Com isso, o animal totêmico passou a ser o substituto natural do pai, sob o nome de “obediência adiada”, desejos reprimidos do complexo de Édipo. Quem quer que infringisse o tabu tornava-se culpado pelos crimes que a sociedade primitiva se interessava, o homicídio e o incesto.

A origem da proibição do incesto em Deleuze e Guattari

Notamos que há um desejo em Freud em edipinianizar o homem pré-histórico e também uma certa maneira de fabulação e que por sua vez, em poucas palavras Deleuze e Guattari nos trazem outra visão da origem da proibição do incesto, onde fica evidente a partir de uma nota de rodapé de Jacques Derrida fazendo um comentário sobre Rousseau: “Antes da festa não havia incesto porque não havia proibição do incesto. Depois da festa, já não há incesto porque ele já está proibido... A própria festa seria o próprio incesto se alguma coisa como tal — o próprio — pudesse ter lugar”. Isso quer dizer que para que haja incesto exigiria tanto das pessoas quanto os nomes, filho, irmã, mãe. Isso porque a filiação genealógica é social e não biológica, e se assim é, no mito, quando Édipo desposa Jocasta, não houve incesto porque eles não tinham conhecimento do parentesco, fato que ocorreu apenas no final da tragédia. O incesto foi assim, inexistente antes da proibição, a proibição que não se encontra datada na história, mas que se deu no devir, o próprio Jung suspeitava da existência real do Édipo ao dizer para Freud que até mesmo um selvagem prefere uma mulher jovem e bonita à mãe ou à avó dele próprio. Levi- Strauss, demonstra que não há filiação primeira, nem primeira geração, mas sempre e desde logo alianças, e que os signos mudaram conforme os sexos e as gerações, bloqueando na filiação o que se devia passar na aliança. E assim, depois da festa citada por Derrida, o incesto, para Deleuze e Guattari, se torna impossível: “Ora, no ato do incesto, podemos dispor de pessoas, mas elas perdem seu nome, já que esses nomes são inseparáveis da proibição que os interdita como parceiros; ou então os nomes subsistem, mas designam tão somente estados intensivos pré-pessoais, que bem poderiam ‘estender-se’ a outras pessoas, como quando se chama mamãe à mulher legítima, ou irmã à esposa. É neste sentido que dizíamos que se está sempre aquém ou além. Nossas mães, nossas irmãs fundem-se entre nossos braços: seus nomes deslizam sobre suas pessoas como um selo demasiado molhado. É que nunca podemos fruir simultaneamente da pessoa e do nome — o que seria, porém, a condição do incesto. Admitamos que o incesto é um engodo, que ele é impossível. Mas, assim, o problema é somente adiado. Não é próprio do desejo desejar o impossível? Pelo menos neste caso, esta trivialidade nem mesmo é verdadeira. Lembremo-nos o quanto é ilegítimo concluir da proibição a natureza do que é proibido; porque a proibição procede desonrando o culpado, isto é, induzindo uma imagem desfigurada e deslocada do que é realmente proibido ou desejado. É mesmo desta maneira que a repressão é prolongada por um recalcamento sem o qual ela não incidiria sobre o desejo”. Portanto, o incesto tal como foi proibido depois da festa, quando as pessoas se tornaram discerníveis, recalcaram o desejo tal como é desejado, e o engodo ou a imagem falsificada passou a recobrir o desejo.

Conclusão: Freud está morto

Enquanto que na psicanalise busca-se a cura do paciente, o encontro mascarado com ele mesmo, colocando o paciente à frente do desejo o espelho deformante do incesto (era isto que você queria, hein?), como observam Deleuze e Guattari num dado momento: “O que se faz é estupidifica-lo, metê-lo numa situação sem qualquer saída; é persuadi-lo facilmente renunciar a ‘si próprio’ em nome dos interesses superiores da civilização”. Doença é aquilo que interrompe a vida, o fluxo ou sua continuação ao infinito que é o mesmo que a paralisação bruta e prematura, que é de onde surge o esquizofrênico artificial. O neurótico surge quando há um bloqueio das saídas, até que ele bloqueie sua própria vergonha e sua culpa, fobia. Trocar o “então era isso que isto queria dizer” (psicanálise) por “acabar com o juízo de Deus” (Artaud), em todos os sentidos, nada de se confessar com o padre ou o psicanalista, ele é tão miserável quanto você, ele apenas aprendeu a controlar a sua paranoia para arbitrar no jogo capitalista: dinheiro = consulta. O passado não tem porque sobreviver psicologicamente e nem fisiologicamente em nosso cérebro, pois ele não deixou de ser, parou apenas de ser útil (Bergson), a vida é agora, daqui a pouco: hecceidade (individuação sem indivíduo). Em vez de se assentar tudo sobre o nome do pai, se abrir para todos os nomes da história, como no delírio de Nietzsche: “Fui Buda entre os indianos, Dioniso na Grécia — Alexandre e César são minhas encarnações, da mesma forma Lorde Bacon, o poeta de Shakespeare. Por último, fui ainda Voltaire e Napoleão, talvez Richard Wagner..., mas desta vez venho como o vitorioso Dioniso, que fará da terra um dia de festa... Não terei muito tempo... Os céus se alegram que eu esteja aqui... Fui também colocado na cruz”. O delírio que é onde a psicanálise tropeça, porque não se resume ao romance familiar, mas no histórico-mundial onde a pergunta que deveria ser feita era: qual é à tua maneira de delirar no campo social?
Deleuze e Guattari criaram a esquizoanálise a partir dos artistas, dos filósofos, dos “loucos”, e o próprio Freud já havia dito que não havia lugar que ele chegasse que um poeta não havia passado antes, isso porque o artista ultrapassa o muro do significante, o significado da coisa em si. Quando significa se subjetiva, cria o bloqueio para as linhas de fuga e o artista, o criador não significa, produz rizoma. Pátria, partido, deus-pai, deus-Édipo, Deus-Deus, são bloqueios que produzem a paranoia, a neurose. O esquizo- artista foge; a criação é a viagem imóvel, a destruição das raízes, a dessubjetivação: não, eu não tenho passado e se o tenho, nada mais é que fenômeno estético, mesmo na doença, como Nietzsche disse que foi na doença que ele encontrou uma saúde superior. Não se trata mais de oscilar entre o paranoico fascista e o esquizo-revolucionário, mas como no conceito do ritornelo, um canto que se eleva, se aproxima de multiplicidades que o povoam com intensidades, que sobem e descem: o nomadismo como movimento, mesmo que no mesmo lugar, para assim se tornar um caloteiro da dívida eterna.


Marcos Ribeiro

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