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A Sociedade da Imagem

setembro 26, 2018 Marcos 0 Comments Category :


A grande ilusão das redes sociais, o seu efeito mágico, é criar a sensação de pertencimento a um grande grupo, de modo que esse grupo, constituído por um espaço virtual, passa a ser uma realidade separada, onde indivíduos descarnalizados tornam-se projetos idealizados de si mesmos. Como num efeito cinematográfico tudo se torna motivo de atenção nas redes, do prato de comida no restaurante até uma briga de cães num dia de sol. Cada momento cotidiano está sujeito a um recorte fotográfico; a cena deve atender a um comando idealizador, que diz como deve ser a aparência da realidade. As conexões e variações são quase infinitas; cada tribo virtual corresponde a uma série de interesses comuns que se relacionam com outras tribos, que se relacionam com outras e outras, criando assim a chamada rede. Diferente da sociedade material, com seus espaços físicos: prédios e ruas e praças e shoppings, onde indivíduos atuam papéis predeterminados pelos dirigentes do comportamento, nas sociedades virtuais a ordem é mostrar, é aparentarser algo, sem necessariamente ter de frequentar certos lugares, mas apenas fazer menção a eles, se posicionar contra ou favor de uma ideia. A rede social faz uma espécie de álbum de recordações ainda não preenchido e o indivíduo descarnalizado acredita estar no controle, porque acha que é ele quem escolhe como e a quem mostrar o álbum. Sob seu efeito mágico, o navegante virtual tem o poder não apenas de enganar o outro, mas principalmente o de se auto enganar. Passa a acreditar em sua projeção idealizada e preferi-la, já que sua vida na sociedade material é um fardo tedioso e vergonhoso. Na sociedade virtual ela é bela, ele é forte; ela é popular, ele é admirado. Dentro daquele grupo seleto ele pode partilhar o seus gostos excêntricos, ela pode ser cobiçada e disputada. A separação entre o público e o privado deixa de existir, as regras que regem o mundo material sedem lugar a novas regras que delimitam os espaços e preenchem as páginas. Ali, eu sou um outro, sou uma projeção de mim mesmo, feita de símbolos e rótulos. Todos avaliam todos ao mesmo tempo, baseados no modo de como a projeção se mostra, de como ela se expressa em relação aos temas que são retirados do mundo material e transportados para o mundo virtual. É como se o mundo virtual confirmasse o mundo material, e mais que isso, como se ele fosse a própria realidade pairando sobre todas as cabeças. Um grande virtuality show onde assistimos nossas vidas idealizadas a procura de status; quanto mais seguidores, mais a projeção ganha vida própria, mais a realidade se virtualiza. Pra quê assistir a vida dos outros em filmes e novelas, se podemos contemplar aquilo que poderíamos ser nas telas?
A sacralização do cotidiano por muito tempo foi exercida pelas artes, alcançando seu auge com o cinema, que faz de uma cena sem importância na vida real parecer única nas telas. Essa é a magia do cinema, fazer o telespectador se esquecer que aquilo se trata de uma ficção ensaiada, que por trás das câmeras há especialistas com suas técnicas, que por trás da naturalidade há um cenário montado, e que os atores decoraram tim tim por tim tim cada fala e gesto a ser interpretado. E é isso que a arte sempre tentou mostrar: que todo momento é sagrado, que todo momento, embora haja uma única testemunha, é único. No entanto, teimosos e cegos que somos, não demos atenção aos artistas, negligenciamos suas visões proféticas. Numa tentativa desesperada de reparação desse equívoco, fomos atraídos pelas redes sociais, mas pelas redes fomos outra vez enganados, dessa vez a crer que a realidade material é apenas um meio de viver a realidade virtual. A rede não foi capaz de embalar o nosso sonho de liberdade, porque ficamos presos a ela e dependentes dela. A utopia se virou contra nós. Dependentes da sociedade da imagem, pousamos para a foto segurando o livro que não lemos; idolatrando o deus que não conhecemos; ostentando as coisas que não precisamos usar. Um espetáculo vibrante de recortes da realidade emaranhados sob os escombros dos afetos que ignoramos por não serem merecedores de curtidas nas redes. De dentro da agonia humana imploramos, gritando através do espelho por uma fagulha de atenção que seja, para que possamos nos enganar e fingir que o mundo não é um manicômio consentido. Do alto de nossa vaidade pulamos no precipício da mentira e negamos a vida, negamos a dor da carne e vestimos a carapaça virtual. Com nossos cérebros computadorizados guardadores de informações perdemos a capacidade de escolha, ficando vulneráveis a todo tipo de artimanha que o sistema articula contra todos. Não precisaremos aguardar a sociedade dos robôs, já estamos nela. Já somos as máquinas controladas pelos chips e cabos de energia.

André Anacoreta

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