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AS INTENSIDADES EM NIETZSCHE, DELEUZE E GUATTARI

agosto 05, 2018 Marcos 0 Comments Category : , , ,


"Um grande filósofo é aquele que cria novos conceitos: esses conceitos ultrapassam as dualidades do pensamento ordinário e, ao mesmo tempo, dão às coisas uma verdade nova, uma distribuição nova, um recorte extraordinário."
Gilles Deleuze

Como diferenciarmos o gênio do louco, ou o doente mental do psiquiatra? Como entender o que é a filosofia ou qual a função do psicanalista para a sociedade moderna? Por que a arte é importante para o humano? Essas são questões abordadas pelos maiores investigadores do pensamento do século XX, maiores porque além de produzir o novo, trouxeram visões antigas com uma maneira nova de ver esses campos, que são tão caros para a humanidade e que ao mesmo tempo, tão desprezados. Mas, onde Deleuze e Guattari se escondem, por que não são encontrados? Porque eles não estão ocultos, mas são inacessíveis, mas não inacessíveis porque habitam num lugar íngreme, mas porque estão à nossa frente e logo que os apanhamos, se evaporam, pois não produziram pensamentos-sistema, onde se formam charcos, onde os coveiros do pensamento sempre o cercam, os dogmatizam e não deixam espaço para o novo, à crítica, tal como são os religiosos que se baseiam numa verdade absoluta ou o sistema das leis que protegem o Estado. O século XX nos trouxe uma das maiores revoluções no tratamento da alma humana, a psicanálise. Freud fez descobertas que mudariam o rumo do desenvolvimento da humanidade, no entanto, petrificaram o seu pensamento, e o pai da psicanálise morreu antes de avisar seus discípulos em que ele poderia estar errado e assim, criaram o cerco. Foi nesta observação, e nas alucinações de maio de 68, que Gilles Deleuze e Félix Guattari surgem para apontar o erro, o imbróglio, que se tornara a psicanálise freudiana. Num texto de 1973, Deleuze exemplifica e reflete sobre a codificação da loucura: “Primeiramente, as formas da lei, ou seja, do hospital, do asilo – e a codificação repressiva, e o confinamento, o antigo confinamento que será chamado no futuro a tornar-se uma última esperança de salvação, quando os loucos dirão: ‘Bons os tempos em que nos confinavam, pois hoje em dia se passam coisas piores’. Em seguida, houve uma espécie de golpe formidável, que foi o golpe da psicanálise: entendia-se que havia pessoas que escapavam a relação contratual burguesa tal como ela aparecia na medicina, e essas pessoas eram os loucos, porque estes não podiam ser partes contratantes, eram juridicamente ‘incapazes’. O golpe genial de Freud foi fazer passar sob à relação contratual uma parte dos loucos, no sentido mais amplo do termo, os neuróticos, e explicar que se podia fazer um contrato especial com eles (donde o abandono da hipnose). Ele é o primeiro a introduzir na psiquiatria, e é nisto finalmente que consiste a novidade psicanalítica, a relação contratual burguesa que até então fora excluída dela. E, em seguida, existem ainda as tentativas mais recentes, cujas implicações políticas e às vezes ambições revolucionarias são evidentes, as tentativas ditas institucionais. Encontra-se aí o tríplice meio de codificação: ou bem será a lei, e se não for a lei será a relação contratual, e se não for a relação contratual será a instituição. E sobre essas codificações florescem nossas burocracias.”
Pois bem, esse recorte se refere, primeiramente, a crítica que Deleuze e Guattari fizeram à psicanálise freudiana em que a abordagem do inconsciente havia se estagnado na família, onde a referência permanece sempre no eixo edipiano, mesmo já não se tratando mais de pais e mãe reais, o analista sempre o escuta em termos de pai e mãe e o processo de cura se tornou um processo interminável que o paciente e o médico giram num círculo como que dizendo “vamos fale...”, como se tratasse sempre do pai e da mãe. Segundo a contraproposta dos franceses, o inconsciente não quer dizer nada, uma vez que o desejo se manifestou à escala do conjunto da sociedade, e que depois foi reprimido, sendo o princípio do processo esquizofrênico. Com isso não seria mais a abordagem do inconsciente através da família, mas sobre as máquinas desejantes. Para os autores as máquinas não querem dizer nada, porque apenas contentam-se em funcionar. Dando continuidade, no mesmo texto Deleuze cita Melaine Klein, quando ela fala do uso arbitrário do psicanalista em relação aos pacientes, que trazem os estados vividos e são transformados em fantasmas, especificamente do contrato: “dê-me seus estados vividos, eu lhe devolverei fantasmas”. Porque se supõe que o paciente diga qualquer coisa e que o médico que o trata diz que isso quer dizer na ordem do sintoma ou do sentido. Isto permite todos os esmagamentos do que o doente diz, toda uma seleção hipócrita, uma vez que é preciso ser muito esperto para dizer quem é que está falando a verdade, se o médico ou o doente, ou o médico da civilização, como Guattari diz em dado momento: o esquizofrênico encontra em situação de ‘vidência’, lá onde os indivíduos cristalizados na sua lógica, na sua sintaxe, nos seus interesses, estão absolutamente cegos. Tal explicação é encontrada em Artaud, Van Gogh, Raymond Roussel, como no trecho da carta de Van Gogh, que escreve: “devemos minar o muro, devemos atravessá-lo com uma lima, lentamente e com paciência”. Para Deleuze, esses artistas, entre tantos outros, quebraram o muro do significante, o muro do papai-mamãe, eles estão bem além, e nos falam com uma voz que é aquela do futuro, pois Deleuze encontrou em Nietzsche, saídas como a força positiva do esquecimento, que é acabar por própria conta com a má consciência ou o remorso, assim Deleuze observa: " O esquecimento revolucionário pode ser aproximado de um outro tema frequente, o de uma fuga ativa que se opõe a uma fuga passiva de uma outra espécie. Quando, por exemplo, Jackson, em sua prisão diz: ' Sim, pode ser que eu fuja, mas ao longo de minha fuga, procuro uma arma!'; isso é a fuga ativa revolucionária oposta a outras fugas, que são fugas capitalistas ou fugas pessoais etc." Vemos nessa análise, que os pintores, os poetas, os filósofos, os revolucionários, os loucos, os nômades, os hippies, os ateus, são fugitivos da alienação dos partidos, do capitalismo, dos tiranos, dos psicólogos que causam dependência por terem se tornado padres, e de todo poder que de certa forma exerce a diminuição da potência. Deleuze e Guattari veem tanto na arte como na filosofia à saída das prisões que esmagam o pensamento ao fazer como numa síntese universal do que seria a filosofia: “ Nós não lemos um aforismo, ou um poema de Zaratustra. Ora, materialmente e formalmente, tais textos não são compreendidos nem pelo estabelecimento ou aplicação de uma lei, nem pela oferta de uma relação contratual, nem por uma instauração de instituição. O único equivalente concebível seria talvez ‘estar no mesmo barco’ ”. Com isso, talvez, compreendemos que não há distinção em psicologia, filosofia, arte e vida. A filosofia ao invés de produzir conhecimento, que seria a função apenas da ciência, é alguma coisa que salta do livro, entra em contato com o "puro fora", por ser tratar de forças, muito próximo do que Deleuze diz da arte em Lógica da Sensação sobre as pinturas de Francis Bacon: “O corpo se esforça precisamente, ou espera precisamente escapar. Não sou eu que tento escapar de meu corpo, é o corpo que tenta se escapar por…Resumindo, um espasmo”. O aforismo como um quadro, o quadro que passa a ser belo no momento em que se sente o movimento, que não começa nos limites do quadro, mas que o atravessa. Sendo assim, aí é que se encontra a inacessibilidade dita anteriormente, não é a questão de buscar um entendimento como muitos o fazem, mas de buscar as intensidades que provocam o delírio, o devaneio. Neste ponto o que Deleuze e Guattari fazem nada mais é que dar continuidade na filosofia de Nietzsche, que em Genealogia da Moral ensinou: “Pois somente assim convém a um filósofo. Não temos nenhum direito de estar, onde quer que seja, isolados: não podemos nem errar isolados, nem isolados encontrar a verdade. Pelo contrário, com a mesma necessidade com que uma árvore dá seus frutos, crescem em nós nossos pensamentos, nossos valores, nossos sins e nãos e ses e quês — aparentados e referidos todos eles entre si e testemunhas de uma única vontade, de uma única saúde, de um único terreno, de um único sol. — Se agradam ao vosso paladar, esses nossos frutos? Mas que importa isso às árvores! Que importa isso a nós, a nós filósofos!..." Nietzsche que considerava os fenômenos como sintomas e que via o filósofo do futuro como o médico da civilização, e que Deleuze e Guattari nos dão um belíssimo exemplo: "[...] Por ter atingido o percepito como 'fonte sagrada’, por ter visto a Vida no vivente ou o Vivente no vivido, o romancista ou o pintor voltam com os olhos vermelhos e o fôlego curto. São atletas: não atletas que teriam formado bem seus corpos e cultivado o vivido, embora muitos escritores não tenham resistido a ver nos esportes um meio de aumentar a arte e a vida, mas antes atletas bizarros do tipo 'campeão de jejum' ou 'grande Nadador' que não sabia nadar. Um Atletismo que não é orgânico ou muscular, mas 'um atletismo afetivo', que seria o duplo inorgânico do outro, um atletismo do devir que revela somente forças que não são as suas, 'espectro plástico'. Desse ponto de vista, os artistas são como os filósofos, têm frequentemente uma saudezinha frágil, mas não por causa de suas doenças nem de suas neuroses, é porque eles viram na vida algo de grande demais para qualquer um, de grande demais para eles, e que pôs neles a marca discreta da morte. Mas esse algo é também a fonte ou o fôlego que os fazem viver através das doenças do vivido (o que Nietzsche chama de saúde). 'Um dia saberemos talvez que não havia arte, mas somente medicina’...". Portanto, nessas observações, fica explicado porque há pessoas que buscam tanto o conhecimento, sendo que se trata de um poço sem fundo, um abismo, e que as outras pessoas fogem por medo de se perder e preferem então se tornarem máquinas programadas, em vez de se libertarem, se lançarem no caos que chega a um ponto que parece levar à loucura, mas na realidade é o contrário, é a medicina. Medicina que não se encontra na academia ou, segundo Deleuze e Guattari, na clínica; porque é ignorado o “puro vivido”, que é interpretado como qualidades sensíveis ao invés de intensidades, pois como bem disse Nietzsche: "não troquem as intensidades por representações", as intensidades que podem ser sobre um corpo da Terra, um corpo de um livro, ou um corpo de um sofredor, no sofredor que vive, que sente e que não apenas existe.

Marcos Ribeiro

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