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A ILUSÃO DA NORMALIDADE, POR MARCOS RIBEIRO

agosto 23, 2018 Marcos 0 Comments Category : ,


“Se falo com ironia, leve ou pesada, sobre os porcos da sociedade, 
é porque nunca será piedoso mostrar compaixão para com os inimigos desta. ”
David Cooper


A sociedade é um projeto que deu errado, basta um pouco de olhar atento para percebermos que estamos dentro de um “manicômio” a céu aberto, uma prisão em que as próprias pessoas que nos rodeiam são os carcereiros que nos vigiam e nos impedem de exercermos a nossa liberdade. O filme que Sean Penn dirigiu, Into the Wild baseado na história real da fuga ativa de Christopher McCandless, que abandonou o diploma, o dinheiro, a carreira, a família para uma viagem em busca de uma experiência genuína, foi de encontro com aquilo que carregamos nos nossos instintos do espírito aventureiro, do corpo pleno na terra que nasceu sem as correntes das convenções sociais, da opressão do sistema que nos obrigam a sermos aquilo que não somos, a fazermos aquilo que não queremos, em nome de ideais sagrados, de rotas que nos levam à insanidade normatizada pela construção do conceito civilidade, que nos cegam para nós próprios e que nos levam a ver apenas aquilo que o sistema entende como “normal”. Os pensadores do movimento da Antipsiquiatria dos anos 60 e 70, foram os que mais tiraram o véu das instituições ditas sagradas, manipuladoras da “verdade” e da “realidade”; que numa organização entre Estado, igreja, hospital, escola, família, ditam o que são leis, quem é são, para inserir os objetivos, os desejos nas pessoas, ou como disse R.D.Laing: “nascemos num mundo onde a alienação nos aguarda”. Isso deixa claro que, mesmo as pessoas percebendo que a sociedade é doente, educam as crianças que vêm ao mundo da mesma maneira que foram educadas, ou seja, pela própria imbecilidade alienada, alienam os inocentes da mesma maneira que foram alienadas; as prendem à educação para colocar no trilho da normalidade, as preparam para serem o mesmo projeto inacabado e o ciclo continua interrupto, os normais dominando o poder, no entanto, como observou mais uma vez R.D. Laing: "A sociedade valoriza muito o seu homem normal. Ela educa as crianças para se perderem e se tornarem absurdas, sendo assim normais. Os homens normais mataram talvez cem milhões de seus semelhantes normais nos últimos cinquenta anos”. A criança é o que a escola ensina, os pais, o contexto social, e é preparada para alcançar o diploma, a formação, o emprego, o casamento, a casa, o automóvel, os filhos, a família, ou numa palavra, vencer na vida. Raramente alguém ousa educar uma criança no sentido libertário, de perceber que é ela, a criança, que tem algo a nos ensinar, pelo contrário, querem que a criança aceite da mesma maneira que elas aceitaram, que existe a ordem, a disciplina, que ela precisa abdicar do sonho e da fantasia, para na escola já conviver na prisão da prisão do mundo, com gritos e ameaças ela é levada à normalidade, aprende a se prender por si só às correntes da religião, da moral, do objetivo. Mas é nesse caminho, nessa pressão que muitos se perdem numa viagem para o mundo interior ao invés do exterior, dissolvendo o ego para se tornarem “anormais” ou “doentes mentais”, onde os psiquiatras, os psicólogos, a família, colocam a etiqueta de “esquizofrênico”, como Thomas Szasz disse que é lá onde o indivíduo se personifica, aceita o rótulo que lhe foi colocado, como observou: ” A histeria, a hipocondria, as obsessões e muitos outros itens tornaram-se doenças. Cedo, aos médicos e psiquiatras uniram-se os filósofos, jornalistas, advogados e leigos, rotulando de ‘doença mental’ todo e qualquer tipo de experiência ou comportamento humano que pudessem detectar ou atribuir a um ‘mau comportamento’ ou sofrimento”. Segundo Szasz, até a metade do século XIX, doença significava uma desordem corporal que alterava a estrutura física, e que depois que a dissecação do corpo foi permitida, a anatomia tornou-se a base da ciência médica, podendo observar as numerosas estruturas do corpo e eis o porquê a doença, conhecida como mental se trata de um mito, porque não foi descoberta com base na experimentação, mas foi inventada, por exemplo, diz Szasz: “ Foi provado que a paresia é uma doença, foi declarado que a histeria o é”. David Cooper, também reflete sobre a legitimidade científica do que pode parecer inquestionável no dogma psiquiátrico: “A ciência natural se fundamenta em cuidadosa observação. Toda investigação deve se processar a partir de fatos observados. Nas ciências física e biológica tais fatos observados são, via de regra, fatos inerentes, isto é, são apreendidos do exterior por um observador, que não é perturbado por eles e não os perturba com o seu processo de observação[...] Numa ciência de interação pessoal, diferentemente, a perturbação recíproca entre o observador e o observado é não só inevitável em todos os casos, mas é esta perturbação recíproca que suscita os fatos primários em que a teoria se baseia”. Diante dos estudos dos que atuaram no movimento Antipsiquiátrico, a normalidade é que foi diagnosticada como doente, confusa e inexistente, e foi Ronald David Laing ( mesmo não se considerando como membro do movimento), que deixou exemplos extraordinários de que a psiquiatria não poderia ser a medicina autêntica da alma, pelo fato de que é diagnosticado como esquizofrenia, nada menos é que um rótulo, um fato social e nunca uma condição, uma doença, porque por não haver uma prova empírica para o diagnóstico, tudo recai sobre a figura que representa um poder e lança uma conspiração para a criação do rótulo, porque se um psiquiatra pode diagnosticar alguém como anormal, em qual percepção ele se baseia? Precisaria que o psiquiatra fosse, segundo Laing, um observador ideal, mas como poderíamos ter a certeza de que o médico não é o louco e o paciente o médico, para termos certeza precisaríamos de um observador ideal. Diz Laing: "Da terra, de um ponto de vista ideal, podemos admirar uma formação de aviões no ar. Mas a formação inteira talvez esteja fora de rota. O avião que se encontre 'fora de formação' pode estar anormal, errado ou louco do ponto de vista dos demais. Mas a própria formação pode estar errada, ou louca do ponto de vista do observador ideal. O avião fora de formação pode estar também mais ou menos fora de rota em relação à própria formação [...] É de fundamental importância não confundir a pessoa que pode estar 'fora de formação' dizendo-lhe que se encontra 'fora de rota', caso ela não esteja. É de fundamental importância não cometer o erro categórico de supor que pelo fato de um grupo estar 'em formação' isto significa que se encontre necessariamente 'na rota'”. É essa situação que coloca o ponto de vista da psiquiatria em xeque. Como saber se o paciente não está apenas fora de formação, mas dentro da rota? E o médico, por sua vez, estar dentro da formação, mas fora da rota, por estar apenas seguindo as ordens do ponto de vista de outros psiquiatras ou, e se o psiquiatra não é o curandeiro de amanhã? Laing não faz cerimonialismo ao atacar o tratamento psiquiátrico convencional e ao familismo: “ A função da Família é reprimir Eros, induzir a uma falsa consciência de segurança, negar a morte evitando a vida, anular a transcendência, crer em Deus para não sentir o Vazio, criar, em suma, o homem de uma só dimensão; promover o respeito, a conformidade, a obediência; desencorajar as crianças de brincar, induzir o medo do fracasso, promover o respeito pelo trabalho e pela ‘respeitabilidade’”. Que mundo é esse? São? Mundo rodeado de fascistas, exploradores de corpos e de fé, assassinos, opressores, machistas, preconceituosos, grupelhos, guerras, genocídios, políticos hipócritas, policiais a serviço do poder, justiça prostituída, cegueira capitalista. Estar em formação, quer dizer são, é estar incluso nessa ciranda para proteger e aceitar todas essas aberrações que se escondem sob a máscara da civilização, ou como disse o poeta André Anacoreta: “A normalidade é uma louca que pensa que é normal. ” Enfim, dr. Laing percebeu que é uma ilusão achar que encontraram a verdadeira loucura ou a verdadeira sanidade, e que a loucura, vista hoje como doença, não se trata de um desabamento, mas de uma abertura de saídas, uma cura natural da integração que é imposto a eles. E que há viagens interiores que precisam de uma orientação na geografia do espaço e do tempo interiores, mas sem o excesso de psicotrópicos e em locais que os ajudassem a vencerem as tempestades dessa viagem.
No entanto, os psiquiatras em cooperação com as famílias, tentam ajudá-los, ajustá-los a qualquer custo, mas será que ao invés da busca da cura, não estão produzindo "monstros" e com isso perpetuando a irracionalidade do sistema? O drama do paciente é, até o momento, estar preso num cumprimento de uma sentença médica e política, por não se tratar apenas de um diagnóstico, mas de uma prescrição social.


Marcos Ribeiro

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