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O VIR-A-SER EM NIETZSCHE E OS ENCONTROS EM ESPINOSA, POR MARCOS RIBEIRO

julho 19, 2018 Marcos 0 Comments Category : , , ,


Uma filosofia se dá por conexões, uma ligação entre pensamento e vida. Falar de um filósofo está para além de interpretá-lo, mas vivenciá-lo, como no pensamento que segue após a leitura, o livro saltando para o fora para destruir os estratos, as subjetivações, os decalques, a má consciência, o ressentimento, como mostrou Deleuze quando pensava com Nietzsche. O pensamento filosófico, não se encontra naquilo que se dizem com frequência: “eu entendo”, mas no que se sente, seja um devaneio, seja um delírio, seja uma perturbação. Nietzsche que partia dos seus delírios para produzir sua filosofia, como o devaneio que teve na visão do Eterno Retorno quando olhou para uma pedra, ou quando percebeu o monstro que era o vir-a-ser heraclitiano, que pode ser a luz para uma nova maneira de analisar o seu pensamento. Uma reflexão mais abrangente pode fazer Nietzsche dialogar com outro filósofo, Espinosa, e mostrar o quanto havia de proximidade entre seus conceitos. Nietzsche, pensando com Heráclito transcreve em A filosofia na Época Trágica dos Gregos, a asserção do filósofo pré-socrático: “Não vejo nada além do vir-a-ser, não vos deixei enganar! É vossa curta vista, e não a essência das coisas, que vos faz acreditar ver terra firme em alguma parte no mar do vir-a-ser e do perecer. Usais nomes das coisas como se estas tivessem uma duração rígida: mas nem mesmo o rio em que entrais pela segunda vez é o mesmo que da primeira vez. ” Heráclito que diz que tanto o rio quanto o homem mudam incessantemente, e com isso negou a existência do “ser” parmenidiano. A partir disto podemos concluir: Nada é, tudo o que acontece é inevitável, o que vemos ou o que sentimos é mera ilusão. Com Heráclito Nietzsche conclui pela inexistência do ser, e nega a razão e a metafísica socrática e cristã. Como assevera em O nascimento da Tragédia: “Há somente um mundo e este é falso, cruel, contraditório, enganoso e sem sentido”. Mais adiante coloca a arte como redenção: “a arte nada mais que a arte... Como via de acesso a estados onde o sofrimento é querido, transfigurado, divinizado, onde o sofrimento é uma forma de grande delícia. ” Assim, o filósofo demonstrava um afastamento do pessimismo schopenhauriano e uma crítica ao cristianismo, onde a aceitação da injustiça e do castigo são necessários a justificação de um Deus que serve de abrigo. Nietzsche propõe o contrário: “dizer sim sem reserva mesmo ao sofrimento, mesmo à culpa, dizer sim a realidade, dizer sim à vida... Ser ele mesmo o eterno prazer no vir-a-ser.” Para indicar a semelhança entre Nietzsche e Espinosa, podemos partir da oposição de Espinosa a Descartes, quando este elaborou o dualismo psicofísico, em que a única verdade só se dá pelo cogito, e o corpo, pura exterioridade. Concluindo-se daí uma hierarquia do pensamento sobre o corpo. Para Espinosa, não há hierarquia, pois a alma e o corpo sempre acontecem no mesmo evento. Deleuze, numa análise da questão que Espinosa refletiu sobre a ação sobre os corpos disse: “Eu vivo ao acaso dos encontros e há uma variação contínua dos afetos e que uma ideia substitui a outra, assim vivemos num constante aumento-diminuição-aumento-diminuição da potência de agir. ” Simplificando: somos o que somos ou o vir-a-ser depende exclusivamente dos encontros e os afetos que nos sãos produzidos no dia a dia ou ao longo de nossas vidas. Afeto que para Espinosa é um modo de pensamento que não representa nada, um sentimento, uma esperança, que é o contrário de uma ideia, que é todo modo de pensamento que representa alguma coisa, que tem uma realidade objetiva. Deleuze citando Espinosa observa como os afetos decorrentes dos nossos encontros é o fio condutor que age no nosso vir-a-ser, dando o seguinte exemplo: eu cruzo na rua com Pedro com quem antipatizo e depois passo por ele, e digo “bom dia Pedro”, ou então sinto medo com quem me antipatizo. Subitamente vejo Paulo que tremendamente me simpatizo, e eu digo “bom dia Paulo”, tranquilizado e contente. Isso é para Espinosa, diz Deleuze, Potência de agir – e essas potências são eternas. O afeto que Pedro causa no meu corpo e mente, produz a ideia de Pedro me entristecendo. Assim como pode acontecer ao contrário, encontro na rua uma pessoa que me agrada e depois encontro outra que me desagrada, é o último encontro que irá fazer minha potência de agir aumentar ou diminuir. No caso de termos um mau encontro e ficarmos tristes, Espinosa diz: “A tristeza não torna ninguém inteligente, na tristeza estamos arruinados. ” Esse foi o ponto do vir-a-ser, o mau encontro, e Deleuze reflete com Espinosa: “Geralmente as pessoas fazem um somatório de suas infelicidades, é de fato aí que a neurose começa, ou a depressão, quando alguém se mete a contabilizar” Espinosa propõe: “Ao invés de fazer um somatório de nossas tristezas, tomar uma alegria como ponto de partida local à condição que sintamos que ela nos concerne verdadeiramente. ” Fazer da alegria um trampolim até encontrarmos outra alegria. Ora, se tudo que acontece e que aconteceu, é e foi inevitável, logo esse acontecimento, seja ele de sofrimento ou de dor, em breve não será mais o mesmo (com exceção, por exemplo, de quando nosso corpo entra em contato com o arsênico, nesse caso é o arsênico que tem o bom encontro) como no rio de Heráclito, daí o pessimismo pode ser substituído por potência, vontade de vida, de criação, sabendo que esse momento se dissolverá em outro sentimento. Porque o bem ou o mal não é algo imanente, mas flutuante, como Espinosa diz na Ética: “Chamamos de bem ou de mal aquilo que estimula ou freia a conservação do nosso ser, isto é, aquilo que aumenta ou diminui, estimula ou refreia nossa potência de agir [...] Portanto, o conhecimento do bem e do mal nada mais é do que a ideia de alegria ou de tristeza que se segue necessariamente desse afeto de alegria ou de tristeza [...] o conhecimento do bem e do mal nada mais é do que o próprio afeto, à medida que deles estamos conscientes.” Espinosa que ao tirar Deus do céu e trazê-lo para a Terra, demonstrou que somente Deus (ou a Natureza) é livre. Deus não pode ser afetado, ele age sem a interferência das paixões, um tufão devasta uma cidade não por ser mau, mas porque efetua a sua livre vontade, exerce a sua potência. Nesse sentido, se somente Deus é livre para agir, o homem é escravo das paixões produzidas pelos encontros, somente um afeto mais forte destrói um afeto forte, se eu estou triste porque rompi um relacionamento, só me livrarei dessa paixão triste se encontrar um novo amor, mais forte daquele que perdi. Mas mesmo que eu o encontre, mesmo assim ainda serei passivo aos encontros, um escravo da Natureza, um novo mau encontro me desabará novamente. Como isso ele dá uma saída para nos livrarmos do acaso dos encontros: criando nossas próprias ideias-noção, que quer dizer, nós mesmos produzirmos nossas paixões mais fortes para destruir as paixões tristes quando essas nos acometem, encontrando assim nossa liberdade, muito próximo do que Deleuze chamou de linhas de fuga pelos rizomas, dessubjetivação, esquecimento ativo Nietzschiano. Dando outro exemplo: imaginemos que nossas vidas dependessem de uma moeda, que de um lado fosse tristeza e do outro fosse alegria, e como no jogo de cara e coroa toda manhã ao acordar poderíamos saber como seria o nosso dia ao jogar a moeda para o alto, se a moeda caísse no lado da alegria já saberíamos como seria o nosso dia: só encontraríamos pessoas agradáveis, pessoas que iriam trazer a ajuda que precisamos, ganhar na loteria, encontrar um grande amor e etc. Já no outro amanhecer a moeda cairia no lado da tristeza; perderíamos dinheiro, seriamos assaltados, encontraríamos apenas pessoas que diríamos: “Estragou o meu dia”, sofreríamos acidentes, romperíamos relacionamentos ou seja, um inferno. No próximo dia ao jogar a moeda novamente e ... novamente tristeza, e no outro, tristeza ou alegria? O acaso: novamente tristeza e isso poderá se repetir por muito tempo, a probabilidade do acaso. Mas, a tristeza seria para sempre? A probabilidade do acaso nunca é para sempre e um dia a moeda irá novamente cair no lado da alegria, ou seja, o eterno retorno que foi revelado por Nietzsche. Nietzsche encontrou a explicação da repetição dos acontecimentos, e em A vontade de Potência ele escreve: “E se o estado deste instante esteve aí, então também esteve aquele que o gerou, e seu estado prévio, e assim por diante para trás de onde resulta que também uma segunda vez ele já esteve aí- assim como uma segunda, terceira vez ele estará aí... Homem! Tua vida inteira, como uma ampulheta, será sempre desvirada outra vez... E então encontrarás cada dor e cada prazer e cada amigo e cada inimigo e cada esperança e cada erro.... É cada vez para a humanidade, a hora do meio dia”. Ou, hora de desvirar a ampulheta, hora do novo vir-a-ser.

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