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FILOSOFIA DO CAOS

julho 24, 2018 Marcos 0 Comments Category :


"Quanto mais quer alcançar as alturas e a claridade, tanto mais suas raízes se inclinam para a terra, para baixo, penetram na escuridão, na profundeza — no mal.” 
Nietzsche 

Quando Nietzsche disse sua célebre frase: “Deus está morto”, ele não o estava matando, mas anunciando, pois coube a Baruch Espinosa a autoria da morte do Deus metafísico, que atacou como ninguém as fontes das falsas ideias que se têm da divindade e de tudo que dela derivam, como a alma, os espíritos, as revelações dos profetas, e por ter apresentado um Deus em que a imanência pertencia senão a si mesma (Deus é a Natureza), como observaram Deleuze e Guattari, “Assim ele é o príncipe dos filósofos. Talvez o único filósofo a não ter nenhum compromisso com a transcendência”. No seu Tratado Teológico-Político, Espinosa traz uma revelação impressionante, que a crença no milagre conduz ao ateísmo, visto que, a Natureza possui todas as perfeições e nenhuma imperfeição, e se existisse a imperfeição, significaria que existiria duas vezes a natureza, e isso é impossível, porque, neste caso, uma mesma e única natureza não pode existir fora de Deus. Partindo disso, se Deus é perfeito, ele apenas produz leis perfeitas, e se alguém acredita em milagres, está pressupondo que pode modificar a Natureza que é perfeita, ou seja, está negando a existência de Deus, uma vez que o que é perfeito não pode ser mudado. Pois, em Deus não há transformação nenhuma, diz Espinosa em Pensamentos Metafísicos, “ele existe necessariamente, isto é, que não pode cessar de ser ou se transformar num outro Deus, pois, se houvesse mudanças então cessaria de ser e haveria vários deuses, e mostramos que ambos os casos são absurdos”.
E assim, ecoou em Nietzsche o pensamento de Espinosa para demolir a crença judaico-cristã, que para Nietzsche, produz o ódio instintivo contra a realidade, o ódio instintivo contra a Natureza.
E é a Arte e a Filosofia que Nietzsche colocará em oposição ao Deus salvador, ao niilismo, a natureza quando nos constrange, a religião que promete uma salvação por alienação com o estandarte do fanatismo que tem como princípio o credo quia absurdum , a religião impossível que tem como mandamento central, amar o próximo como a si mesmo, quer dizer, sermos bons, isto é, aqueles que põem sobre si mesmos e ao seu próprio fazer como bons, da bondade hipócrita, como Nietzsche diz em O Anticristo: “’Não julgueis!’ Dizem eles, mas mandam para o inferno tudo o que fica em seu caminho. Ao fazerem Deus julgar, julgam eles próprios, ao glorificarem Deus, glorificam a si próprios”.
Dostoiévski ao escrever o livro O Idiota, mostrou com o seu anti-herói, que um homem bom nesse mundo cruel sempre será consumido pela deslealdade, bom é sinônimo de idiotice, portanto, como Nietzsche disse, nesse mundo só houve um cristão, e esse morreu na Cruz. Só existiu, portanto, um homem bom. Visto dessa maneira, Cristo nada mais foi que um idiota, nos legando uma doutrina na qual, todos fingem aceitar mesmo sabendo ser inviável.
A metafísica judaico-cristã, que segundo Nietzsche, Sócrates teria inventado ao mudar o rumo dos filósofos pré-socráticos, quando propôs que todos os valores superiores são de primeira ordem a todos os conceitos superiores: o ser, o absoluto, o bem, o verdadeiro, o perfeito, fez chegar ao conceito de Deus, a última coisa, a mais tênue, aonde a linguagem advoga sem cessar a favor do erro, como diz Nietzsche em Crepúsculo do Ídolos: “A ‘razão na linguagem: ah! Que velha senhora enganadora! Temo que jamais nos livraremos de Deus, porquanto acreditamos ainda na gramática”. No entanto, sempre terá razão Heráclito, quando diz “o ‘mundo das aparências’ é o único mundo real, o ‘mundo- verdade’, foi somente acrescentado pela mentira...”. E foi o ateniense, que ao estabelecer os dois mundos, o inteligível e sensível, criou verdades, valores universais e superiores, e com isso, pôs limites à vida.
Nietzsche em outro momento se refere ao cristianismo como platonismo para o povo. Com essa invenção socrática que veio até a nós pelos escritos de Platão, fez uma ruptura na maneira de viver dos gregos, que viviam a vida sem a ideia do além-vida, do extra- mundo e com isso, desprezou o instinto e, com ele, a arte. Os gregos, anteriores a Sócrates, faziam do sofrimento a arte da tragédia, mesmo a vida sendo dura, mesmo sob a iminência da invasão dos inimigos, mesmo sob as dificuldades eles criavam: os deuses se confrontando com os homens, a vida era aquilo como se apresentava, o vir-a-ser, o amor fati. E com a invenção do platonismo e do cristianismo, o devir passou a ser negado. Quando a vida se apresenta a nós com sua realidade trágica, o homem de rebanho se refugia num Deus, um salvador para socorrê-lo; os gregos aceitavam, revertiam o sofrimento em afirmação, como relata Plutarco, quando disseram a Leônidas, que as flechas dos soldados de Xerxes, se lançadas, esconderiam a luz do sol, e no qual obteve a resposta do herói: “Então Combateremos à sombra". Como a “Vontade de potência" nietzschiana, dizer não para afirmar um sim, como a beleza de superar a si mesmo, fazendo do sofrimento o instinto de uma força afirmativa e criadora, dionisíaca por excelência: Dionísio, sofredor dos mistérios, aquele deus que experimenta em si o sofrimento da individualização.
Afinal, ninguém é livre dos constrangimentos vindos desse Deus, da Natureza; portanto, ninguém viverá sem os sofrimentos que a vida nos apresentam, como demonstra Espinosa na Ética: “Se os homens não tivessem essa esperança e esse medo, e acreditassem, em vez disso, que as mentes morrem juntamente com o corpo, e que não está destinada, aos infelizes esgotamentos pelo fardo da piedade, uma outra vida, além desta, eles voltariam à sua maneira de viver, preferindo entregar-se à licenciosidade e obedecer ao acaso e não a si mesmos. Isso não me parece menos absurdo do que, se alguém, por não acreditar que possa nutrir, sempre, o seu corpo com bons alimentos, preferisse saciar-se de venenos e substâncias letais; ou se, por ver que a mente não é eterna ou imortal, preferisse, por isso ser demente e viver sem razão”.
Neste seguimento Schopenhauer viu no pessimismo a saída, ou no realismo: “Uma vida sem sofrimento é desumana”, e a única via de salvação era a fuga para o nada, ou a negação total da vida. Nietzsche não interpretava a vida com os dualismos, mas criação e destruição, alegria e sofrimento, dor e prazer, como as faces da mesma moeda, apenas o uno, e com isso, em vez da fuga, o sofrimento como musa de criação do artista, do sofrimento para a criação da obra de arte para a preparação do eterno retorno do prazer.
Dessa maneira, com a fusão da filosofia com a vida, não é questão de buscar o sofrimento, mas daquele que o aceita, não o sofrimento em si, mas a vida como ela é, como toda criação que é gerada pela dor: o parto, as obras-primas da arte, as criações do homem primitivo que inventou suas armas, que dominou o fogo após o terror das feras e dos inimigos. A arte nesse sentido como uma questão de vida ou morte.
A arte ao invés da crença, a vida na sua plenitude ao invés da sua negação e da repressão dos sentimentos, os “maus pensamentos”. E assim, fazer sentido o famoso aforismo de Nietzsche: ” Aquilo que não me mata me fortalece”, de aceitar a dor que o devir nos apresenta, e fazer dele a vitória, como o guerreiro grego que ia de encontro à batalha, se vencedor, novos mundos eram conquistados.
Manuel Bandeira, com dezoito anos perguntou ao médico quanto tempo ele teria de vida, o médico o respondeu: "pode viver cinco, dez, quinze anos... Quem poderá saber? ” E nisso, disse o poeta, foi vivendo, morre, não morre. E ele não se abateu como o Anjo melancólico de Dürer, fez da existência uma fusão com a arte, uma vida ativa. E são tantos os exemplos da beleza da vida produzida a partir do caos, não só da obra de arte em si, mas da vida como obra de arte. Do caos que fez nascer o universo, ou da filosofia de Espinosa que se produziu na excomunhão e na doença, assim como Nietzsche em que tudo o que foi dito aqui pode resumir-se ao que ele viu na dor e na loucura: “Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si, para dar à luz uma estrela bailarina. ”

Marcos Ribeiro

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