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A ALEGRIA: A ÉTICA DE ESPINOSA, POR MARCOS RIBEIRO

junho 08, 2018 Marcos 0 Comments Category : , ,



“O homem pode agir bem contrariamente aos decretos de Deus, impressos como leis na nossa alma ou na dos profetas, mas não contra o eterno decreto de Deus que está gravado em todo o Universo e que respeita à ordem de toda a natureza. ”
Espinosa, Tratado Político

Se fossemos definir a Ética de Espinosa (a busca pela beleza do pensamento, de como viver bem), poderíamos dizer que para Espinosa, só há uma conquista que devemos ir ao encontro, a Alegria. Somente por isso devemos buscar a sabedoria, aquilo que ele chamou de segundo e terceiro gêneros do conhecimento, porém, a alegria que ele apresenta não é a alegria que o vulgo está acostumado, mas com a criação de um novo conceito, assim como Descartes se tornou o filósofo criador do conceito Cogito; Platão, Ideia; Nietzsche, Valores; Espinosa pode ser representado como o filósofo criador do conceito Alegria, e que, somente para a Alegria nos faz sentido viver.
Para entendermos o conceito Alegria, é preciso, antes de mais nada, adentrar no primeiro capítulo da Ética, e no Tratado Teológico-Político, em que ele nos mostra como a figura do Deus antropomórfico, transcendental é inviável existir, e que por se tratar de um juiz que emana poder, ao contrário do que se pensa, impede de efetuarmos a nossa alegria, e que só nos proporciona tristeza, e com isso atrapalha a razão para o conhecimento de Deus como imanente, inseparável da Natureza, livre e causa de si mesmo.
Para o filósofo é um absurdo Deus existir como ele é descrito na palavra revelada: um ser delimitado por uma figura definível, quer dizer, com um corpo, uma figura, porque se assim o fosse, sabendo que um  corpo é composto por largura, comprimento e profundidade,  significaria que Ele seria divisível, e sendo que tudo que é divisível é finito e tudo que é finito, por sua vez, padece, seria uma completa contradição. Espinosa demostrou que Deus tem uma natureza infinita e eterna, e que tudo que existe, existe em Deus e que tudo que ocorre são pelas leis de sua natureza infinita. Sendo assim, Deus não tem um corpo, Deus é o próprio infinito, que age independente de qualquer causa externa.
Por sua vez, tudo que há na natureza é finito e determinado a operar ou por outra causa que é igualmente finita, e essa última pela mesma razão por outra, e assim por diante até o infinito, até Deus e suas leis imutáveis. O intelecto humano não é um modo absoluto, mas um modo definido, todas as coisas se seguem necessariamente da natureza existente de Deus e pela necessidade desta natureza estão determinadas a operar de uma maneira definida. Assim, somente Deus é livre, e jamais poderia ser constrangido como dizem os teólogos e religiosos que tudo depende da vontade de Deus e que as coisas podem ser diferentes do que são, mas é impossível a vontade de Deus ser modificada, pois se assim o fosse, seria supor uma existência fora de Deus, de alguma coisa que não depende Dele, de submeter Deus a um destino, a um devir-Deus, um Deus que é a única causa de si, sendo afetado, submetido e coagido por paixões humanas: compaixão, misericórdia, cólera, graça, amor, ódio etc. 
Deus é natureza, ou natureza naturante, Espinosa expulsou a transcendência da filosofia; a  imanência, a natureza pertencendo a ela mesma e no lugar da transcendência o pensamento infinito, toda tentativa que busca a união da razão e do divino nada mais é que a imagem do pensamento, pressupostos subjetivos que são ilusões transcendentais aprisionadas no plano da imanência. Nem a aposta de Pascal escaparia de tais demonstrações, Deus não pode punir como na palavra revelada porque Ele não fixou suas leis eternas, mas apenas decretos, através dos profetas, à maneira de um legislador e de um príncipe, regras jurídicas para a manutenção do Estado. Isso não foi nenhuma novidade aonde quer que o Estado e os mitos se uniram para o povo temer o mal e assim viver escravizado sob as ordens da ficção.
Em relação ao homem, Espinosa categorizou suas ações, baseadas em duas paixões primitivas, a alegria e a tristeza, e mais uma terceira que seria a essência do homem, o desejo. Essas duas paixões escravizam o homem na sua existência, pois ele está à mercê de como a natureza, como as ideias exteriores farão fazer o seu ânimo flutuar, agitados por causas exteriores, tal como um barco à deriva agitado por ventos contrários, de um lado para o outro. E que o homem comum, que está imerso no primeiro gênero do conhecimento, se baseia apenas na opinião e na sua imaginação e por isso vive escravizado às ideias confusas de como Deus ou a Natureza age sobre ele: o homem é afetado por uma tristeza, seja de qualquer grau, para ele se livrar dessa tristeza, apenas por um afeto contrário, mais forte, de alegria, é que pode livrá-lo da tristeza. A tristeza diminui a nossa potência de agir, a alegria nos revigora aumentando a nossa potência de agir.
No segundo gênero do conhecimento, o homem sabe distinguir o verdadeiro do falso, já não baseia mais suas paixões pela opinião e a imaginação, mas pelo próprio ato de compreender. Ele sabe que as coisas não são simplesmente contingentes, mas necessárias, ele compreende que as paixões foram produzidas por forças exteriores, que somente uma alegria pode destruir a tristeza, porém, ele por continuar submisso ao acaso das coisas e ideias externas,  ainda não está de posse da Alegria, ainda não alcançou o terceiro gênero.
Desta maneira, ao alcançar o segundo gênero do conhecimento, o homem chega no limiar do terceiro gênero do conhecimento, da Alegria, pensada por Espinosa. Afinal, a Alegria de certo modo é desprezada pelas pessoas, ela fica oculta sob o desejo. Esse desejo que é a essência do homem e que produz as paixões da tristeza e dos seus derivados: o ódio, a inveja, o remorso, a compaixão; como as que se seguem da alegria: o amor, a glória, a infelicidade do outro para o invejoso, a abundância  de dinheiro para o avaro; e assim, mesmo que alguém esteja alegre, não está, intelectualmente,  de posse da Alegria, vive acorrentado ao desejo e aos excessos  que o faz ser um escravo do acaso que produzem as paixões.
Para se aproximar enfim do terceiro gênero do conhecimento, da Alegria ou do que Espinosa chamou de beatitude, é finalmente estar de posse da Alegria, da potência de agir que para o filósofo é o mesmo que razão e virtude suprema , a mente como  duração existente apenas à medida que envolve a existência atual do corpo, Deus para o conhecimento adequado das coisas, o conhecimento intelectual de Deus, o homem tem um conhecimento claro que todas as coisas existem em Deus e são por meio Dele concebidas e que mesmo sendo afetado por causas exteriores compreende a tristeza como uma paixão, e assim livra-se dela sem que seja preciso esperar que o acaso lhe traga uma alegria, ele expulsa a tristeza produzindo a sua própria alegria, pois ele compreende que tudo que aconteceu, pela razão, foi necessário, assim como todas as tristezas que ele já vivenciou, pois o destino humano não é livre, como já foi dito, somente Deus ou a Natureza é livre para agir sem constrangimento, como Espinosa nos fala na quinta parte da Ética, Potência do intelecto ou a Liberdade Humana: “ Com efeito, vemos que a tristeza advinda da perda de um bem diminui assim que o homem que o perdeu dá-se conta que não havia nenhum meio de conservá-lo. Vemos, igualmente, que ninguém sente pena de uma criança por ela não saber falar, andar, raciocinar, e, por viver, enfim, tantos anos como que inconsciente de si mesma, se, por outro lado, os homens, em sua maioria, nascessem já adultos e apenas alguns nascessem crianças, pois, nesse caso, a infância seria considerada não como algo natural e necessário, mas como um defeito ou uma falta de natureza”. (grifo meu).
Vemos pois que, Deus é o infinito e age livremente sobre nós, e nós, por sua vez, somos prisioneiros do constrangimento das coisas e ideias exteriores, e que se quisermos estar de posse da felicidade suprema, nos agarremos  à Alegria, à virtude intelectual, assim como conta um biógrafo e discípulo de Espinosa, que diante de um cruel e temível episódio que faria abater qualquer alma comum, deu o testemunho das palavras do nosso filósofo: “De que adianta nos servir da sabedoria, se, caindo nas mesmas paixões do povo, não tivéssemos a força de nos reerguer por nós mesmos?”

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