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A Violência Policial e a Disciplina por José Oiticica

outubro 23, 2017 Marcos 0 Comments Category :


"O mais pronto recurso dos possuidores, na defesa contra os não-possuidores, é a força bruta, a violência organizada. Chamam a isso defender a ordem. A ordem, para eles é a não-reclamação. Eles permitem certas reclamações superficiais, que não perturbem ou contestem sua exploração metódica. Se essa exploração empobrece de tal maneira as massas, que torna insuportável a vida, surgem graves conflitos, motins e revoluções. Para sufoca-las, o Estado, valendo-se da ignorância e miséria proletária, arregimenta suficiente número de soldados, paga-lhes um soldo, veste-lhes uma farda e, resguardado por duros castigos e férrea disciplina, confia-lhes armas aperfeiçoadíssimas. Assim, são os próprios proletários, aliciados na polícia, no exército, na marinha de guerra, que sustentam os ricaços contra os pobres. Se os trabalhadores chegassem um dia à compreensão desse fato, não se alistariam jamais como soldados e, se os soldados se compenetrassem da verdadeira traição que praticam contra seus irmãos de miséria, deixariam as armas ou voltá-las-iam contra os ricos, contra os governos.
Para conseguir dos soldados, ex-homens, essa passividade da besta, profundamente irracional, esse automatismo de máquina mortífera, emprega o Estado especiais processos para criar-lhes a mentalidade do escravo.
O conjunto desses processos chama-se disciplina. Pela instrução militar, habitua-o à servilidade sob comando. Manda-o perfilar-se, dar meia-volta, apresentar armas, fazer alto, marchar, exigindo regularidade perfeita, mecânica, nos movimentos. Enfiando-lhe a farda vistosa, com perneiras, talabarte, cinturão, quepe, diferente dos outros, classe especial, não-trabalhadora, não-povo. Depois, constrói uma escala de postos, com ordenados crescentes e crescentes autoridades, fazendo assim, da malícia carreira e viciando os indivíduos no vício de mandar, de ser superior. Assinala cada supremacia com divisas, galões, bordados, e organiza rigorosa tabela de precedências e pragmáticas. Isso é fogo de vista para iludir os ingênuos. Nada valeria, porém, se não fora a cultura moral cuidadosamente preparada para o fim da defesa. Essa cultura assenta na obediência. O soldado há-de obedecer rigorosamente a seu superior. Para obter isso, infundem-lhe, com incessantes admoestações, avisos, discursos, a noção da honra militar. Como fim elevado, nobre ideal, missão gloriosa, apontam-lhe a defesa da pátria. O patriotismo, sentimento natural, é pelo Estado convertido em elemento psicológico de obediência para fins egoístas, para manutenção da ordem, para repressão violenta e brutal dos famintos e desafortunados. Ao menor zunzum de greve, chama-se a polícia, e, se não basta a polícia, recorre-se ao exército. E este, formado para defender a pátria contra inimigos externos, faz-se feitor de fazenda para surrar escravos e forçá-los ao trabalho, caladinhos.
Pela disciplina, o soldado não tem opinião, não pode julgar nem discutir os atos do seu superior, há-de cumprir as ordens sem direito de examinar sua justiça ou injustiça. Comete, assim, muitas vezes, monstruosos crimes inconscientemente ou estupidamente, porque a disciplina lhe deliu, no ânimo, todos os resquícios de independência moral."

José Oiticica, A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos

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