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SIGNIFICAÇÃO DA LOUCURA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE

julho 03, 2017 Marcos 0 Comments Category :



Se, apesar desse formidável jogo da “moralidade dos costumes”, sob o qual viveram todas as sociedades humanas, se durante milênios antes da nossa era e mesmo no curso desta até os nossos dias. (nós mesmos vivemos num pequeno mundo de exceção e, de algum modo, na zona má) – ideias novas e divergentes, avaliações de juízos de valor contrários nunca deixaram de surgir. Isso só ocorreu porque estavam sob a égide de um salvo-conduto terrível: quase em toda a parte, é a loucura que aplana o caminho da ideia nova, que levanta a proibição de um costume, de uma superstição venerada. Compreendem por que foi necessária a assistência da loucura? De qualquer coisa que fosse tão terrificante e tão incalculável, na voz e nos gestos, como os caprichos demoníacos da tempestade e do mar e, por conseguinte, tão dignos como eles do temor e do respeito? De qualquer coisa que levasse como as convulsões e a baba do epilético, o sinal visível de uma manifestação absolutamente involuntária? De qualquer coisa que parecesse imprimir ao alienado o sinal de alguma divindade, da qual ele parecesse ser como a máscara e o porta-voz? De qualquer coisa que inspirasse, mesmo ao promotor de uma ideia nova, a veneração e o temor dele próprio e não já remorsos, e que o impelisse a ser o profeta e o mártir dessa ideia? – Enquanto em nossos dias nos dão sem cessar a entender que o gênio possui, em lugar de um grão de bom senso, um grão de loucura, os homens de outrora estavam muito mais perto da ideia de que lá onde houver loucura, há também um pouco de gênio e de sabedoria – qualquer coisa de “divino”, como se murmurava ao ouvido. Ou melhor, afirmava-se mais claramente: “Por meio de loucura, os maiores benefícios foram derramados sobre a Grécia”, dizia Platão, filosofo grego, numa citação do livro Fedro, com toda a humanidade antiga. Avancemos ainda um passo: a todos esses homens superiores, impelidos irresistivelmente a romper o jugo de uma moralidade qualquer e a proclamar leis novas, não tiveram outra solução, se não eram realmente loucos, que se tornarem loucos ou simular a loucura – Isso vale para todos os inovadores em todos os domínios e não somente naqueles das instituições sacerdotais e políticas: - até mesmo o inventor da métrica poética teve de se impor por meio da loucura, segundo relata Platão na sua obra Íon. Até épocas bem mais tranqüilas, a loucura permaneceu como uma espécie de convenção entre os poetas: Sólon recorreu a ela quando inflamou os atenienses para a reconquista de Salamina, segundo que narra Plutarco, historiador grego, da vida de Sólon. – “Como alguém se torna louco quando não o é e quando não tem a coragem de fingir que o é”. 
Quase todos os homens iminentes das antigas civilizações se entregaram a esse espantoso raciocínio; uma doutrina secreta, feita de artifícios e de indicações da inocência e mesmo da santidade de tal intenção e de tal sonho. As fórmulas para se tornar “homem-medicina” entre os índios, santo entre os cristão da Idade Média, “anguécoque” entre os groenlandêses, “pajé” entre os brasileiros são, em suas linhas gerais, as mesmas; o jejum além dos limites, a prolongada abstinência sexual, o retiro no deserto ou no cimo de uma montanha ou ainda no alto de uma coluna ou também “a permanência num salgueiro velho à margem de um lago” e a ordem de não pensar em outra coisa senão naquilo que pode desencadear o êxtase e a desordem do espírito. Quem ousaria, portanto, lançar um olhar no inferno das angustias morais, as mais amargas e as mais inúteis, onde provavelmente definharam os homens mais fecundos de todos os tempos! Quem ousaria escutar os suspiros dos solitários e dos transviados: “Ah! Deem-me ao menos a loucura, poderes divinos! A loucura para que termine finalmente por acreditar em mim mesmo! Deem-me delírios e convulsões, horas de claridade e de trevas repentinas, aterrorizem-me com arrepios e ardores que jamais mortal algum experimentou, cerquem-me de ruídos e de fantasmas! Deixem-me uivar, gemer, rastejar como um animal: contando que adquira a fé em mim mesmo! A dúvida me devora, matei a lei e tenho por lei o horror dos vivos por um cadáver; se não sou mais do que a lei, sou o último dos réprobos. De onde vem o espírito novo que está em mim, se não vem de vocês? Provem-me, portanto, que eu lhes pertenço! Só a loucura a mim o demonstra”. E muitas vezes esse fervor atingia o seu objetivo: na época em que o cristianismo dava amplamente prova da sua fecundidade multiplicando os santos e os anacoretas, imaginando assim que se afirmava a si mesmo, havia em Jerusalém grandes estabelecimentos de alienados para os santos naufragados, para aqueles que haviam sacrificado o seu último grão de razão. 

 Nietzsche, Aurora

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