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O ELOGIO AO ÓCIO

junho 30, 2017 Marcos 0 Comments Category :


Como muitos homens da minha geração, fui educado segundo os preceitos do provérbio que diz, que o ócio é o pai de todos os vícios. E, como sempre fui um jovem virtuoso, acreditava em tudo o que me diziam, razão pela qual adquiri esta consciência que me faz trabalhar duro até hoje. Mas apesar de a consciência ter controlado as minhas ações, minhas opiniões sofreram uma verdadeira revolução. Eu acho que se trabalha demais no mundo de hoje, que a crença nas virtudes do trabalho produz males sem conta e que nos modernos países industriais é preciso lutar por algo totalmente diferente do que sempre se apregoou.
É bastante conhecida a história do viajante que, ao ver doze mendigos deitados ao sol, na cidade de Nápoles (isto foi antes da época de Mussolini), disse que queria dar uma lira ao mais preguiçoso. Onze se levantaram para disputá-la, e então o viajante a deu ao décimo segundo. Foi uma decisão acertada. Mas nos países que não podem desfrutar o sol do Mediterrâneo, o ócio é mais difícil e vai ser preciso muita propaganda para fazê-lo vingar. Eu gostaria que os líderes da YMCA1 iniciassem, após a leitura das próximas páginas, uma campanha para persuadir os jovens de boa índole a não fazerem nada. Se fizerem isso, eu não terei vivido em vão.
Antes de apresentar meus argumentos em favor da preguiça, devo excluir uma tese que considero inaceitável. Sempre que um indivíduo que já tem o bastante para viver se propõe a exercer uma ocupação cotidiana, como a de professor ou datilógrafo, vem alguém lhe dizer que isto é um crime, que está tirando o pão da boca de outro. Se este argumento fosse válido, bastaria que ficássemos todos parados para ter nossas bocas devidamente alimentadas. O que essa gente esquece é que as pessoas geralmente gastam o que ganham e gastando geram empregos. Quando uma pessoa gasta seu rendimento, está alimentando com este gasto tantas bocas quanto as que esvazia com seu ganho. O verdadeiro vilão, sob este ponto de vista, é o indivíduo que poupa. Se ele apenas deixa sua poupança num pé-de-meia, é claro que não está ajudando a criar empregos. Mas se ele investe sua poupança, a questão é menos óbvia, e criam-se diferentes situações.
Uma das maneiras mais comuns de se aplicar a poupança é emprestando-a ao governo. Mas considerando que o grosso do gasto público da maioria dos governos civilizados consiste na cobertura de despesas das guerras passadas e na preparação das guerras futuras, a pessoa que empresta seu dinheiro ao governo encontra-se na mesma posição do vilão que aluga assassinos. O resultado líquido dessa prática econômica é aumentar a força armada do Estado ao qual a pessoa emprestou sua poupança. Melhor seria, obviamente, que ela gastasse seu dinheiro, mesmo que fosse no jogo ou na bebida.
Mas pode-se dizer que a situação é completamente diferente se a poupança for investida em empresas industriais. Quando essas empresas prosperam, produzindo coisas úteis, esta afirmação é admissível. Mas nos dias que correm, ninguém há de negar a situação falimentar da maioria das empresas. Isto significa que uma enorme quantidade de trabalho humano que poderia ter sido alocado na produção de coisas passíveis de serem usufruídas foi gasta na produção de máquinas que, quando prontas, ficam ociosas sem produzir beneficio para ninguém. A pessoa que investe sua poupança em negócios fracassados está, portanto, prejudicando outras pessoas e a si mesma. Se ela gastasse seu dinheiro dando festas, por exemplo, seus amigos ficariam felizes (é o que se espera), bem como todos aqueles com quem seu dinheiro foi gasto: o açougueiro, o padeiro e o fornecedor de bebidas. Mas se a pessoa o gasta, digamos, na construção de ferrovias para trens de superfície num lugar onde os trens de superfície são inadequados, terá desviado uma enorme quantidade de trabalho por canais que não trazem qualquer beneficio a ninguém. No entanto, se essa pessoa empobrece com o insucesso de seu investimento, será vista como vítima de uma desgraça imerecida, ao passo que o alegre esbanjador, que gastou seu dinheiro filantropicamente, será desprezado como pessoa tola e frívola.
Mas tudo isso são apenas preliminares. Quero dizer, com toda a seriedade, que muitos malefícios estão sendo causados no mundo moderno pela crença na virtude do trabalho, e pela convicção de que o caminho da felicidade e da prosperidade está na redução organizada do trabalho
Antes de mais nada: o que é o trabalho? Existem dois tipos de trabalho: primeiro, o que modifica a posição dos corpos na superfície da Terra ou perto dela, relativamente a outros corpos; segundo, o que manda que outras pessoas façam o primeiro. O primeiro tipo é desagradável e mal pago, o segundo é agradável e muito bem pago. O segundo tipo pode ser estendido indefinidamente: além daqueles que dão ordens, há os que dão conselhos a respeito das ordens que devem ser dadas. Geralmente, dois tipos opostos de conselhos são dados simultaneamente por dois grupos organizados, e a isto se chama de política. A qualificação necessária para este tipo de trabalho não é o conhecimento do tema a respeito do qual se dão conselhos, mas o conhecimento da arte de falar e escrever convincentemente, isto é, da propaganda.
Por toda a Europa, embora não nos Estados Unidos, existe uma terceira classe de pessoas que é mais respeitada do que ambas as classes de trabalhadores. São pessoas que, por meio da propriedade da terra, têm o poder de fazer com, que outras paguem pelo privilégio de poder existir e trabalhar. Esses proprietários de terra são ociosos, donde se poderia esperar que eu os elogiasse. Infelizmente, o seu ócio só é possível devido ao trabalho dos outros e, na verdade, a sua aspiração a um ócio confortável é, historicamente, a origem de todo o evangelho do trabalho. A última coisa que essa gente jamais desejou é que outros seguissem seu exemplo.
Do início da civilização até a Revolução Industrial, um homem era em geral capaz de produzir, trabalhando arduamente, um pouco mais do que o necessário para a própria subsistência e a de sua família, embora sua mulher trabalhasse não menos arduamente e os filhos também adicionassem trabalho logo que atingiam uma idade suficiente. O pouco que excedia a satisfação das necessidades básicas não ficava para os produtores, pois era apropriado pelos guerreiros e sacerdotes. Em épocas de escassez não havia excedente, mas os guerreiros e sacerdotes asseguravam-se os tributos de costume, o que levava muitos trabalhadores à morte por inanição. Este sistema existiu na Rússia até 19172 e existe ainda hoje no Oriente. Na Inglaterra, apesar da Revolução Industrial, ele se manteve em pleno vigor durante as guerras napoleônicas e persistiu até há cem anos, quando a nova classe dos manufatureiros chegou ao poder. Na América ele foi extinto pela Revolução, menos no Sul, onde se manteve até a Guerra Civil. Um sistema tão duradouro e de fim tão recente há de ter deixado marcas profundas no pensamento e na opinião dos homens. Muitas das idéias correntes acerca do caráter virtuoso do trabalho deriva desse sistema que, no entanto, dada a sua origem pré-industrial, não é adequado ao mundo moderno. A moderna técnica trouxe consigo a possibilidade de que o lazer, dentro de certos limites, deixe de ser uma prerrogativa de minorias privilegiadas e se torne um direito a ser distribuído de maneira equânime por toda a coletividade. A moral do trabalho é uma moral de escravos, e o mundo moderno não precisa da escravidão.
É claro que, se dependesse da sua vontade, os camponeses das comunidades primitivas não entregariam o magro excedente para garantir a subsistência de guerreiros e sacerdotes: teriam preferido produzir menos ou consumir mais. Por isso, no início, foi preciso forçá-los a produzir mais e entregar o excedente. Pouco a pouco, porém, descobriu-se que era possível induzi-los a aceitar uma ética segundo a qual era sua obrigação trabalhar duro, mesmo que uma parte desse trabalho fosse destinada a sustentar o ócio de outros. Reduziram-se, desse modo, tanto a necessidade de coerção quanto as despesas do governo. Ainda hoje, noventa e nove por cento dos assalariados britânicos receberiam com total espanto a proposta de que o rei tivesse rendimentos iguais ao de um trabalhador comum. A idéia do dever, historicamente falando, foi um meio usado pelos detentores do poder para convencer os demais a dedicarem suas vidas ao benefício de seus senhores, mais do que aos seus próprios interesses. É claro que os detentores do poder escondem tal fato de si mesmos, procurando acreditar que seus interesses particulares são idênticos aos interesses maiores da humanidade. Isto é verdade em algumas situações: os proprietários de escravos atenienses, por exemplo, empregavam parte de seu lazer em contribuições permanentes à civilização, o que teria sido impossível sob um sistema econômico justo. O lazer é essencial à civilização e, em épocas passadas, o lazer de uns poucos só era possível devido ao trabalho da maioria. Este trabalho era valioso, não porque o trabalho é bom, mas porque o lazer é bom. E, com a técnica moderna, seria possível a justa distribuição do lazer sem nenhum prejuízo para a civilização.
A técnica moderna tornou possível a drástica redução da quantidade de trabalho necessária para garantir a todos a satisfação de suas necessidades básicas. Isto ficou claro durante a Primeira Guerra Mundial. Todos os membros das forças armadas, todos os homens e mulheres engajados na produção de munições, na espionagem, na propaganda de guerra e nas funções de governo ligadas à guerra foram sacados das ocupações produtivas. Apesar disso, o nível geral de bem-estar físico entre os assalariados não-qualificados do lado dos aliados era mais alto do que antes e até do que depois da guerra. A guerra demonstrou claramente que, por meio da organização científica da produção, uma pequena parte da capacidade de trabalho do mundo moderno é suficiente para que a população desfrute um nível de conforto satisfatório. E se, ao final da guerra, tivesse sido preservada a organização científica criada para liberar os homens para a tarefa de lutar e municiar, e se a jornada de trabalho tivesse sido reduzida a quatro horas, estaria tudo certo. Em vez disso, foi restaurado o antigo caos — aqueles cujo trabalho era necessário voltaram às suas longas horas de trabalho, os demais foram deixados à míngua como desempregados. Por quê? Porque o trabalho é um dever, as pessoas não devem receber salários proporcionais à sua produção, mas à virtude demonstrada em seu esforço. Esta é a moral do Estado escravista, aplicada a circunstâncias totalmente diferentes daquelas em que ele existiu. Não admira que o resultado seja desastroso. Vejamos um exemplo. Suponhamos que, num dado momento, uma certa quantidade de pessoas está empregada na fabricação de alfinetes. Elas produzem todos os alfinetes de que o mundo necessita, trabalhando, digamos, oito horas por dia. Então surge um invento com o qual as mesmas pessoas podem produzir o dobro da quantidade de alfinetes que produziam antes. Mas o mundo não precisa de duas vezes mais alfinetes: eles já são tão baratos que dificilmente se comprarão mais alfinetes por causa da baixa dos preços. Num mundo sensato, todas as pessoas envolvidas na produção de alfinetes passariam a trabalhar quatro horas por dia, em vez de oito, e tudo mais continuaria como antes. Mas, no mundo em que vivemos, isto seria considerado uma desmoralização. Permanece a jornada de oito horas, sobram alfinetes, alguns empregadores vão à falência e metade dos homens antes alocados na fabricação de alfinetes perde seu emprego. No final, a quantidade de lazer é a mesma de antes, porém, enquanto metade das pessoas está totalmente ociosa, a outra metade é submetida ao sobretrabalho. Dessa forma, assegura-se a crença de que o inevitável lazer causará a miséria por toda parte, em vez de ser uma fonte universal de felicidade. Pode-se imaginar coisa mais insana?
A ideia de que os pobres devem ter direito ao lazer sempre chocou os ricos. Na Inglaterra do início do século XIX, a jornada de trabalho de um homem adulto tinha quinze horas de duração. Algumas crianças cumpriam, às vezes, essa jornada, e para outras a duração era doze horas. Quando uns abelhudos intrometidos vieram afirmar que a jornada era longa demais, foi-lhes dito que o trabalho mantinha os adultos longe da bebida e as crianças afastadas do crime. Eu era ainda criança quando, pouco depois de os trabalhadores urbanos terem conquistado o direito de voto, e para a total indignação das classes superiores, os feriados públicos foram legalmente instituídos. Lembro-me de uma velha duquesa exclamando: "O que querem os pobres com esses feriados? Eles deviam estar trabalhando!” Hoje em dia as pessoas são menos francas, mas o sentimento persiste, e é fonte de de boa parte de nossa confusão econômica. [Osório diz: foi contra isso que lutou Marx! Mas há escravos que o praguejam!].
Não pretendo insistir no fato de que, em todas as sociedades modernas, fora a URSS, muita gente consegue escapar até mesmo de um mínimo de trabalho: os que vivem de herança e os que casam por dinheiro. Eu penso que o fato de se permitir que essas pessoas sejam ociosas não é nem de longe tão nocivo quanto o fato de se exigir dos assalariados que escolham entre o sobretrabalho e a privação.
Se o assalariado comum trabalhasse quatro horas por dia, haveria bastante para todos, e não haveria desemprego — supondo-se uma quantidade bastante modesta de bom senso organizacional. Essa ideia choca as pessoas abastadas, que estão convencidas de que os pobres não saberiam o que fazer com tanto lazer. Nos Estados Unidos, os homens costumam trabalhar longas horas, mesmo quando já desfrutam uma ótima situação, e ficam sinceramente indignados com a ideia do lazer para os trabalhadores, a não ser na forma do castigo cruel do desemprego. Na verdade, eles rejeitam o lazer até para os seus filhos. De um modo muito estranho, ao mesmo tempo que desejam que seus filhos trabalhem tanto que não tenham tempo de se civilizarem, esses homens não se importam que suas esposas e filhas não se dediquem a trabalho algum. A inutilidade esnobe, que nas sociedades aristocráticas se estende a ambos os sexos, numa plutocracia [Osório diz: Poder da riqueza e do dinheiro. Dominação dos homens ricos]. é limitada às mulheres. Isto porém não torna a inutilidade mais de acordo com o bom senso.
O uso judicioso do lazer, devo admitir, é produto da civilização e educação. Um homem que toda a sua vida trabalhou longas horas irá se sentir entediado se ficar ocioso de repente. Mas, sem uma quantidade adequada de lazer, a pessoa fica privada de muitas coisas boas. Não há mais nenhum motivo pelo qual a maioria da população deva sofrer tal privação, e só um ascetismo tolo faz com que continuemos a insistir no excesso de trabalho quando não há mais necessidade. Mas o que acontecerá quando se chegar à situação em que o conforto seja acessível a todos sem a necessidade de tantas horas de trabalho?
No Ocidente, temos várias formas de lidar com esse problema. Não nos empenhamos nem um pouco na realização da justiça econômica, de modo que a maior parte do produto total fica nas mãos de uma minoria, boa parte da qual simplesmente não trabalha. Devido à total ausência de controle central sobre a produção, produzimos uma imensa quantidade de coisas de que não precisamos. Mantemos ociosa uma parcela considerável da população trabalhadora, que se torna dispensável justamente porque se impõe o sobretrabalho à outra parcela. Quando esse método se revela inadequado, fazemos a guerra: colocamos um monte de gente para fabricar explosivos e outro tanto para explodi-los, tal como crianças que acabaram de descobrir os fogos de artificio. Combinando todos esses mecanismos, somos capazes, ainda que com alguma dificuldade, de manter viva a noção de que uma grande quantidade de trabalho manual é o quinhão inevitável do homem comum.
Movimentar a matéria em quantidades necessárias à nossa existência não é, decididamente, um dos objetivos da vida humana. Se fosse, teríamos de considerar qualquer operador de britadeira superior a Shakespeare. Fomos enganados nessa questão por dois motivos. Um é a necessidade de manter os pobres aplacados, o que levou os ricos a pregarem, durante milhares de anos, a dignidade do trabalho, enquanto tratavam de se manter indignos a respeito do mesmo assunto. O outro são os novos prazeres do maquinismo, que nos delicia com as espantosas transformações que podemos produzir na superfície da Terra. Nenhum desses motivos exerce um especial fascínio sobre o verdadeiro trabalhador. Se lhe perguntarmos qual é a melhor parte de sua vida, ele dificilmente responderá: "É o trabalho manual, que sinto como a realização da mais nobre das tarefas humanas, e também porque fico feliz em pensar na capacidade que tem o homem de transformar o planeta. É verdade que meu corpo precisa de horas de descanso, que procuro preencher da melhor forma, mas meu maior prazer é ver raiar o dia para poder voltar ao trabalho, que é a fonte da minha da minha felicidade”. Nunca ouvi nada do gênero saindo da boca de nenhum trabalhador. Eles encaram o trabalho como deve ser encarado, uma forma de ganhar a vida, e é do lazer que retiram, aí sim, a felicidade que a vida lhes permite desfrutar.
Há quem diga que o lazer só é prazeroso até certo ponto e que as pessoas não saberiam como preencher o seu dia se tivessem uma jornada de quatro horas. Considerar isto uma verdade no mundo moderno constitui uma condenação da nossa civilização. As coisas jamais foram assim. A antiga propensão para a despreocupação e o divertimento foi de certo modo inibida pelo culto da eficiência. O homem moderno acha que qualquer atividade deve ser exercida em prol de outras coisas, nunca da coisa mesma. Há, por exemplo, pessoas sisudas que condenam o hábito de ir ao cinema, dizendo que ele induz a juventude ao crime. Mas o trabalho necessário à produção dos filmes é tido como respeitável, porque é trabalho, e porque gera lucro. A noção de que atividade boa é aquela que produz lucro constitui uma completa inversão da ordem das coisas. O açougueiro que lhe vende carne e o padeiro que lhe vende pão são dignos de louvor, porque estão ganhando dinheiro. Mas se você come com deleite e vagar a comida que eles lhe venderam, você é um frívolo, a menos que só esteja comendo para ter energia para trabalhar. De modo geral, o que se diz é que ganhar dinheiro é bom e gastar dinheiro é ruim. Como se trata dos dois lados da mesma transação, tudo isso é um completo disparate. Todo mérito que possa existir na produção de bens tem de advir, forçosamente, do proveito que se obtém em consumi-los. Em nossa sociedade, o indivíduo trabalha pelo lucro, mas a finalidade social de seu trabalho reside no consumo daquilo que ele produz. O divórcio entre os fins individuais e os fins sociais da produção é o que torna tão difícil pensarmos com clareza num mundo em que a busca do lucro constitui o único incentivo ao trabalho. Pensamos demais na produção e de menos no consumo. Por isso, acabamos dando pouca importância ao desfrute e à felicidade e deixamos de avaliar a produção pela satisfação que ela proporciona ao consumidor.
Quando sugiro a redução da jornada de trabalho para quatro horas, não quero com isto dizer que o tempo remanescente deveria necessariamente ser gasto em frivolidades. Quero dizer que quatro horas diárias de trabalho deveriam ser suficientes para dar às pessoas o direito de satisfazer as necessidades básicas e os confortos elementares da vida, e que o resto de seu tempo deveria ser usado da maneira que lhes parecesse mais adequada. Uma condição fundamental de um tal sistema social é que a educação ultrapasse as suas atuais fronteiras e adote como parte de seus objetivos o cultivo de aptidões que capacitem as pessoas a usar seu lazer de maneira inteligente. E não estou aqui pensando apenas em atividades supostamente "intelectualizadas". As danças camponesas desapareceram, salvo nas áreas rurais mais remotas, mas ainda devem existir na natureza humana os impulsos que as fizeram florescer. Os prazeres das populações urbanas se tornaram fundamentalmente passivos: ver filmes, assistir a partidas de futebol, ouvir rádio e assim por diante. Isto ocorre porque as energias ativas da população estão totalmente absorvidas pelo trabalho. Se as pessoas tivessem mais lazer, voltariam a desfrutar prazeres em que participassem ativamente.
No passado havia uma pequena classe ociosa e uma grande classe trabalhadora. A classe ociosa desfrutava vantagens que não tinham fundamento na justiça social, o que tornou essa classe inapelavelmente opressora, limitou seu sentido de solidariedade e levou-a a inventar teorias para justificar seus privilégios. Isso fez diminuir enormemente a sua excelência, mas não a impediu de ter contribuído para quase tudo o que hoje chamamos de civilização. Ela cultivou as artes e descobriu as ciências, escreveu os livros, inventou as filosofias e aperfeiçoou as relações sociais. Mesmo a libertação dos oprimidos foi geralmente iniciada a partir de cima. Sem a classe ociosa, a humanidade nunca teria emergido da barbárie.

Bertrand Russell, O elogio do ócio

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