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"Eu sou um pirotécnico": sobre o método e a trajetória de Michel Foucault

junho 16, 2017 Marcos 0 Comments Category : ,



 Você muitas vezes disse que não gosta quando perguntam quem você é. Vou tentar assim mesmo. Gostaria que o chamássemos de historiador?

Eu me interesso muito pelo trabalho que os historiadores fazem, mas quero fazer outro.

Devemos chama-lo de filósofo?

Também não. O que faço não é absolutamente uma filosofia. E também não é uma ciência cujas justificativas ou demonstrações temos o direito de exigir-lhe.

Então, você se definiria?

Eu sou um pirotécnico. Fabrico coisa que serve, finalmente, para um cerco, uma guerra, uma destruição. Não sou a favor da destruição, mas sou a favor de que se possa passar, de que se possa avançar, de que se possa fazer caírem os muros.
Um pirotécnico é, inicialmente, um geólogo. Ele olha as camadas do terreno, as dobras, as falhas. O que é fácil cavar? O que vai resistir? Observa de que maneira as fortalezas estão implantadas. Perscruta os relevos que podem ser utilizados para esconder-se ou lançar-se de assalto. Uma vez tudo isso bem delimitado, resta o experimental, O tatear. Enviam-se informes de reconhecimento, alocam-se vigias, mandam fazer relatórios. Define-se em seguida, a tática que será empregada. Seria o ardil? O cerco? Seria a tocaia ou bem o ataque direto? O método, finalmente, nada mais é que esta estratégia.

A sua primeira ofensiva, se posso dizê-lo, é em 1961, com História da loucura na Idade Clássica. Tudo é singular nesta obra: seu tema, seu método, sua escrita, suas perspectivas. Como surgiu a ideia desta pesquisa?

Em meados de 1950, publiquei alguns trabalhos sobre a psicologia e doença mental. Um editor me pediu para escrever uma história da psiquiatria. Eu pensei em escrever uma história que nunca apareceria, a dos loucos. O que é ser louco? Quem o decide? A partir de quando? Em nome de quê? Esta é uma primeira resposta possível.
[...]
● Havia de sua parte, uma experiência pessoal do universo psiquiátrico...

Na minha vida pessoal, eu me senti, desde o despertar da minha sexualidade, excluído, não verdadeiramente rejeitado, mas pertencendo à parte sombria da sociedade. Este é, de qualquer modo, um problema impressionante quando descoberto por si mesmo. Muito rapidamente, isto se transformou numa espécie de ameaça psiquiátrica: se você é anormal, é porque é doente. Estas três categorias: não ser como todo mundo, não ser normal e ser doente são, entretanto, muito diferentes e achavam-se assimiladas umas às outras. Porém, não desejo fazer minha autobiografia. Isto não é interessante.
[...]
Os marxistas não colocavam, nesta época, o problema da loucura, nem o da instituição psiquiátrica...

Cheguei a compreender, mais tarde, que estes problemas eram considerados perigosos, por várias razões por parte dos marxistas. Tratava-se, antes de mais nada, de violar a grande lei da dignidade das ciências, esta hierarquia ainda positivista, herdada de Auguste Comte, que coloca, em primeiro lugar, as matemáticas, depois, a astronomia, etc. Tratar dessas ciências moles, um pouco viscosas, que são a psiquiatria ou a psicologia, não era bom!
Ao fazer a história da psiquiatria tentando analisar, sobretudo, seu funcionamento histórico numa sociedade, eu colocava o dedo, sem absolutamente sabe-lo, no funcionamento da psiquiatria na União Soviética. Eu não tinha em mente a ligação dos partidos comunistas com todas as técnicas de vigilância, de controle social, de demarcação das anomalias.
Aliás, é por isso que os psiquiatras marxistas, que foram muitos, alguns abertos e inteligentes, não inventaram a antipsiquiatria. Foram os ingleses, um pouco místicos, que fizeram esse trabalho. Os psiquiatras marxistas franceses faziam a máquina funcionar. Sem dúvida, colocaram em questão um certo número de coisas, mas, na história do movimento antipisiquiatrico, seu papel é, ainda, assim, relativamente limitado.

Você quer dizer que isto se deve ao vínculo profundo que eles têm com uma certa manutenção da ordem?

Sim. Um comunista, em 1960, não podia dizer que um homossexual não é um doente. Também não podia dizer: a psiquiatria está ligada, em todos os casos, de ponta a ponta, a mecanismos de poder que é preciso criticar.

Então os marxistas acolheram mal este livro...

De fato, foi um silêncio total. Não houve um só marxista que tivesse reagido, nem a favor nem contra. No entanto, ele se dirigia, primeiramente, àquelas pessoas que colocavam o problema do funcionamento da ciência. Pode-se perguntar, retrospectivamente, se este silêncio não estava ligado ao fato de que, com toda a inocência, portanto, com toda a tolice, levando uma lebre que os embaraçava.
Existia, ainda, uma razão mais evidente e simples para o desinteresse dos marxistas; é que eu não me servia de Marx, explicitamente e maciçamente, para conduzir a análise. Contudo, na minha opinião, História da Loucura é, pelo menos, tão marxista, quanto muitas histórias da ciência escrita por marxistas.
Mais tarde, em torno dos anos de 1965-1968, no momento em que o “retorno a Marx” produzia os efeitos não somente teóricos, mas também práticos que você bem sabe, era duro não ser marxista, era duro ter escrito tantas páginas sem que tivesse, num único lugar, a pequena frase elogiosa sobre Marx à qual foi possível agarrar-se...Infelizmente, eu havia escrito três pequenas frases sobre Marx que eram detestáveis! Então, veio a solidão, e também as injúrias...

Neste momento, você teve o sentimento de estar só?

Senti bem antes, particularmente depois da publicação de História da Loucura. Entre o momento em que comecei a colocar este tipo de problema, em relação à psiquiatria e seus efeitos de poder e o momento em que essas questões começaram a encontrar um eco concreto e real na sociedade, passaram-se anos. Eu tinha a impressão de ter acendido o estopim e, depois, não se ouviu nada. Como num cartoon, eu desafinava ao piano, esperando a detonação, e a detonação não vinha!

Você imaginava, na verdade, seu livro como uma bomba?

 Sem dúvida! Eu encarava este livro como uma espécie de vento verdadeiramente material, e continuo a sonhar com ele assim... Meu sonho é que ele fosse um explosivo eficaz como uma bomba, e bonito como fogos de artifício.

E História da loucura foi mesmo percebida muito rapidamente como um fogo de artifício, mas antes de tudo como literário. Isto o desconcertou?

Era uma espécie de fogo cruzado: eu me dirigi mais aos políticos, porém, no primeiro instante, só fui escutado por pessoas que eram consideradas como literatos, em particular Blanchot e Barthes. Mas é possível que eles tivessem, a partir de sua própria experiência literária, uma sensibilidade a um certo número de problemas que os políticos, estes, não tinham. Que eles tenham reagido, parece-me finalmente, ser o sinal de que eles eram, no interior mesmo da prática essencialmente literária, mas profundamente políticos do que aqueles que tinham o discurso marxista para codificar sua política.
Retorno às histórias biográficas! Quando vi pessoas, que eu admirava muito, como Blanchot e Barthes, interessarem-se por meu livro, senti ao mesmo tempo, um deslumbramento e um pouco de vergonha, como se eu os tivesse enganado, sem querer. Pois aquilo que eu fazia era, para mim, inteiramente estranho ao campo da literatura. Meu trabalho estava diretamente ligado à forma das portas nos asilos, à existência das fechaduras, etc. Meu discurso estava ligado a esta materialidade, a estes espaços fechados, e eu queria que as palavras que eu tinha escrito atravessassem muros, fizessem saltar fechaduras, abrissem janelas!

Você diz isto rindo...

Aí, é mesmo preciso pôr um pouco de ironia... O que é chato nas entrevistas é que o riso não aparece!

● Nada impede de indica-lo

Evidentemente, mas coloca-se entre parênteses “riso”, você sabe muito bem que isto não tem a sonoridade de uma frase que se pede em riso...

● Voltemos para a questão da escrita. Você diz que, aos seus olhos, História da loucura não é uma obra literária. Entretanto, sua escrita e seu estilo foram imediatamente notados. Você é lido pela novidade e pela acuidade das análises, mas também por prazer. Há um estilo Michel Foucault, efeitos de pena quase que em cada página. Isto não é, apesar de tudo, um caso. Por que diz que não é um escritor?

É muito simples. Creio que é preciso ter uma consciência artesanal neste âmbito. Do mesmo modo que é preciso fazer bem um tamanco é preciso fazer bem um livro. Isto vale, aliás, para qualquer pacote de frases impressas tanto num jornal como numa revista. Para mim, a escrita não é nada mais do que isto. Ela deve servir ao livro. Não é o livro que serve a esta grande entidade, tão sacralizada hoje, que seria “a escrita”.
Você me diz que eu emprego, frequentemente, um certo número de contorções estilísticas que parecem provar que eu gosto do estilo belo. Sim... há sempre uma espécie de prazer baixamente erótico, talvez, em encontrar uma frase bonita, quando se está entediado, numa manhã, escrevendo coisas não muito divertidas.
Fica-se um pouco excitado, delirando e, bruscamente, aquela bela frase, que se esperava, aparece. Isto dá prazer, isto dá um élan para ir mais longe. Isto acontece, evidentemente.

[...]
Você se considera um autor?

A partir do momento em que você escreve, mesmo que seja com o seu nome civil, começa a funcionar como alguém que é um pouco outro, um “escritor”. Estabelece, para si mesmo, continuidades e um nível de coerência que não são exatamente aqueles da sua vida real. Um livro seu remete a outro livro seu, uma declaração sua remete a um gesto público seu.... Tudo isso acaba por constituir uma espécie de neoidentidade, que não é idêntica à sua identidade civil, nem mesmo à sua identidade social. Aliás, isso é bem sabido, uma vez que se quer preservar a vida dita privada.
Você não admite que sua vida de escritor ou sua vida pública interfira totalmente na sua vida privada. Você estabelece entre você, escritor, e outros escritores, aqueles que o precederam, aqueles que o cercam ou que o seguirão, laços de afinidade, de parentesco, de ascendências, que não são os de sua família real.
Não é assim que vejo meu trabalho. Eu imaginaria, antes, meus livros como bilhas que rolam. Elas são captadas, tomadas, lançadas novamente. E se isso funciona, tanto melhor. Mas não me pergunte quem eu sou antes de utilizar minhas bilhas para saber se elas vão estar envenenadas, ou se elas não são bem esféricas, ou se elas não rolam no sentido certo. Em todo caso, não é pelo fato de ter me perguntado a minha identidade, que você saberá se o que eu faço é utilizável.

[...]
Você não gosta que perguntemos por suas justificativas, pelas razões de sua legalidade. Por quê?

Quando voltei da Tunísia, no inverno de 1968-1969, para a Universidade de Vincennes, era difícil dizer o que quer que fosse sem que alguém perguntasse: “De onde você fala? ” Esta questão me colocava sempre num grande desânimo. Pareci, no fundo, uma questão policial.  Sob a aparência de uma questão teórica e política (“De onde você fala? ”), me era colocada, de fato, uma questão de identidade (“No fundo, quem é você? ”, “Diga-nos, então se você é marxista ou não é marxista, “Diga-nos se é idealista ou materialista”, “Diga-nos se é professor ou militante”, “ Mostre sua carteira de identidade, diga em nome de que você vai poder circular, de modo que possamos reconhecer onde você está”).
Isso me parecia, finalmente, uma questão de disciplina. E não posso deixar de rebater estas graves interrogações sobre a justificativa do fundamento da pequena questão vilã: “ Quem é você, onde nasceu? A que família pertence? ”. Ou ainda: “Qual é a sua profissão? Como é que você pode ser classificado? Onde deve fazer seu serviço militar? ”.
Eis o que eu escuto, a cada vez que se pergunta: “ De que teoria você se utiliza? O que o abriga? O que o justifica? ” Ouço questões policiais e ameaçadoras: “Aos olhos de quem você será inocente mesmo que deva ser condenado? ” Ou: “deve haver um grupo de pessoas, uma sociedade, uma forma de pensamento que o absolverão, e dos quais você poderá obter sua soltura. E, se esses o absolvem, é porque nós devemos condená-lo! ”

Nestas questões de identidade, de que lhe parece ter tanto que fugir?

Creio que a identidade é uma das primeiras produções do poder, desse tipo de poder que conhecemos em nossa sociedade. Eu acredito muito, com efeito, na importância construtiva das formas jurídico- político- policiais da nossa sociedade. Será que o sujeito, idêntico a si mesmo, com sua historicidade própria, sua gênese, suas continuidades, os efeitos de sua infância prolongados até o último dia de sua vida etc., não seria o produto de um certo tipo de poder que se exerce sobre nós nas formas jurídicas antigas e nas formas policiais recentes?
É necessário lembrar que o poder não é um conjunto de mecanismos de negação, de recusa, de exclusão. Mas, efetivamente, ele produz. Possivelmente, produz até os próprios indivíduos. A individualidade, a identidade individual são produtos do poder. É por isso que desconfio dele, e que me esforço por desfazer essas armadilhas.
A única verdade de História da loucura ou de Vigiar e punir é que há pessoas que se servem delas e que lutam com elas. É a única verdade que busco. A questão “de onde vem isto? Será marxista? ” Parece-me, finalmente, uma questão de identidade, portanto, uma questão de polícia.



"Eu sou um pirotécnico": sobre o método e a trajetória de Michel Foucault gravada em junho de 1975. In: POL-DROIT, Roger. Michel Foucault –entrevistas. 

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